por Vinicius Belo
Durante muitos anos, as grandes cozinhas dos hotéis de luxo foram ocupadas quase exclusivamente por homens. Aos poucos, esse cenário começa a mudar — e uma das mudanças mais simbólicas acontece dentro de um dos endereços gastronômicos mais respeitados da hotelaria brasileira.
O Alloro, restaurante italiano do cinco estrelas Miramar Hotel by Windsor, em Copacabana, ganhou há alguns meses uma nova protagonista. Aos 33 anos, a carioca Juliana Magioli torna-se a primeira mulher a assumir a chefia da casa, responsável por um restaurante que, ao longo de pouco mais de uma década, conquistou espaço entre os melhores restaurantes de hotel do Rio, acumulando prêmios e até reconhecimento internacional.
A trajetória de Juliana não foi construída por acaso. Antes de descobrir sua verdadeira vocação, chegou a cursar Engenharia Civil, mas abandonou a faculdade ao perceber que seu futuro estava na cozinha. Formada em Gastronomia pela Universidade Estácio de Sá, construiu sua carreira em algumas das cozinhas mais exigentes do Brasil. Passou pelo saudoso Le Pré Catelan, onde trabalhou ao lado de Rolland Villard, integrou a equipe de Felipe Bronze no Pipo e consolidou sua paixão pela culinária italiana durante seis anos no Cipriani, restaurante do Belmond Copacabana Palace, período em que a casa conquistou sua primeira estrela Michelin e lhe proporcionou experiências profissionais em Portugal, Chile e Peru.
Agora, esse repertório chega ao Alloro. A missão é dar continuidade ao legado de um restaurante que se tornou uma referência na gastronomia hoteleira do Rio de Janeiro, reconhecido como Melhor Restaurante de Hotel no prêmio Chef dos Chefs, destaque da Veja Rio e integrante da prestigiada lista Best Discovery, extensão do The World’s 50 Best Restaurants.
Conheci Juliana recentemente e uma característica chama atenção antes mesmo de qualquer prato chegar à mesa: sua energia. Jovem, disciplinada, atenta aos detalhes, ela transmite a mesma precisão que leva para a cozinha. Conversa olhando nos olhos, circula pelo salão, acompanha o serviço de perto e demonstra um entusiasmo raro de quem entende que comandar um restaurante vai muito além das receitas. Abaixo, você confere o nosso bate-papo.
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CH: Você assumiu a cozinha do Alloro al Miramar muito jovem. Em algum momento sentiu que precisou provar mais do que os outros?
Acho que, de forma geral, essa cobrança existe. Quando você é mulher, jovem e assume uma cozinha desse porte, existe uma expectativa natural em volta do seu trabalho. Mas eu sempre tentei responder com entrega. Tudo que vivi antes foi muito importante para mim. Passei por cozinhas exigentes, aprendi com muita gente boa, errei, cresci e aproveitei muito cada etapa. Acho que isso me deu base para assumir o Alloro com seriedade, mas também com a minha própria identidade.
CH: O que um hóspede talvez nunca imagine sobre os bastidores de um restaurante dentro de um hotel de luxo?
Acho que as pessoas não imaginam o quanto a operação de um restaurante dentro de um hotel de luxo é complexa. Não é só o serviço de almoço ou jantar. Existe uma operação funcionando 24 horas por dia, com room service, piscina, hóspedes e muitas demandas acontecendo ao mesmo tempo. Existe uma cobrança constante para que tudo saia no tempo certo, com qualidade e consistência. São muitas etapas, muita logística e muito controle nos bastidores para que a experiência do cliente seja agradável do início ao fim.
CH: Na sua visão, o que diferencia um restaurante muito bom de um restaurante realmente inesquecível?
Acho que um restaurante muito bom entrega boa comida e bom serviço. É uma experiência bem executada e correta, mas um restaurante inesquecível cria memória. Ele vai além de uma boa refeição: envolve ambiente, atendimento, cuidado, detalhes e emoção. É quando a pessoa sai e leva algo dali com ela, continua lembrando de um prato, de um sabor ou de uma sensação. Acho que é aí que aquele momento realmente ficou marcado, que causou algo importante.
CH: Você acha que um restaurante pode mudar completamente a percepção que alguém tem de um hotel?
Acho que sim. A comida tem um poder muito grande de criar vínculo e memória. Às vezes, a pessoa entra no hotel pela hospedagem, mas sai lembrando de um jantar, de um almoço, de um atendimento ou de um prato específico. Em um hotel de luxo, o restaurante ajuda a contar a história daquele lugar. Ele não é um detalhe, faz parte da experiência do hotel como um todo.
CH: Em um mundo tão acelerado, você acha que sentar à mesa virou um luxo?
Acho que virou uma forma de luxo, mas não no sentido de ostentação. É luxo porque exige tempo, presença e atenção. Hoje, com a rotina tão acelerada, parar para viver uma experiência de verdade à mesa, daquelas que ficam na memória, se tornou raro. Eu mesma amo sair para comer bem e conhecer novos lugares, mas, pela rotina corrida, faço isso muito menos do que gostaria. Então, para mim, é um luxo quando consigo sentar em um restaurante, desacelerar, aproveitar e viver aquele momento de verdade.
CH: Você trabalha em uma rotina extremamente intensa dentro da hotelaria de luxo, mas também mostra nas redes sua disciplina com os treinos. Como consegue equilibrar a pressão da cozinha com o cuidado com o corpo e a saúde?
Eu tento encaixar dentro da realidade, sem romantizar muito, porque às vezes é muito difícil. A cozinha exige muito de mim, física e mentalmente, então o treino me ajuda justamente a sustentar essa rotina. É um momento em que eu descarrego, me cuido e saio um pouco da pressão do trabalho. E como eu tenho grandes amigas de treino, acaba virando também um momento de lazer, algo que me faz bem e muito feliz. Não vejo como uma cobrança a mais, mas como algo que me ajuda a manter o equilíbrio.
Para Check Hotels, Juliana representa também uma mudança de geração na hotelaria brasileira. Ela chega para comandar uma das cozinhas mais importantes da Rede Windsor sem abrir mão da técnica, da leveza e da personalidade. Um movimento que merece ser observado de perto.












