Quem nunca esteve em um hotel e percebeu que, de repente, havia alguém ao lado produzindo conteúdo?
Você está tomando café da manhã e uma pessoa filma o buffet inteiro, e você junto. Entra no elevador e encontra alguém repetindo uma sequência de stories. Chega ao lobby e tem tripé, celular e gravação. Ou está na piscina, tentando simplesmente relaxar, enquanto alguém passa boa parte do tempo falando para a câmera, refazendo cenas e filmando tudo ao redor.
Talvez você mesmo já tenha aparecido, sem querer, no conteúdo de alguém.
Isso virou uma cena bastante familiar nos hotéis. E não há necessariamente nada de errado em fotografar uma viagem, mostrar um quarto bonito ou dividir uma experiência nas redes sociais. Check Hotels mesmo trabalha com conteúdo, viajamos, conhecemos hotéis e restaurantes e registramos boa parte dessas experiências.

A questão é outra: em que momento o direito de produzir conteúdo começa a interferir no direito de outra pessoa simplesmente aproveitar aquele lugar?
É uma discussão que começa a aparecer com mais força na hospitalidade. Não existe, até agora, uma pesquisa global que comprove uma onda de hotéis e restaurantes proibindo influenciadores. O que existe são episódios documentados, em diferentes mercados, de estabelecimentos estabelecendo limites para gravações, equipamentos e produções que interferem na operação ou na experiência dos demais clientes.
E alguns desses episódios dizem bastante sobre a relação que criamos com os lugares que frequentamos.
Quando o restaurante vira estúdio
Um dos casos mais emblemáticos aconteceu em Londres e envolve Jeremy King, um dos restaurateurs mais conhecidos da cidade.
No The Park, em Bayswater, o problema chegou a um ponto curioso: os banheiros do restaurante começaram a fazer sucesso nas redes sociais e passaram a ser usados como cenário para produção de conteúdo.
King relatou clientes chegando com malas e tripés, trocando de roupa e passando longos períodos fotografando e gravando. Enquanto isso, pratos chegavam às mesas e esfriavam. Em um dos episódios relatados pelo restaurateur, um grupo de cerca de dez mulheres e seus acompanhantes teria praticamente transformado a área dos banheiros em camarim.
O The Park decidiu estabelecer limites.
O caso ganhou repercussão na imprensa britânica e colocou uma pergunta desconfortável sobre a mesa: restaurantes deveriam poder restringir esse tipo de produção?
Na Espanha, a discussão chegou ao direito
Na Espanha, o assunto ganhou inclusive uma dimensão jurídica.
Em agosto de 2026, o El País discutiu até onde um restaurante pode ir ao restringir a presença ou a atividade de influenciadores.
As reclamações passam por tripés, iluminação, equipamentos que interferem na circulação, gravação de outros clientes sem autorização e produções que alteram a dinâmica normal de um estabelecimento.
Há também outro capítulo conhecido dessa relação: pedidos de refeições ou experiências gratuitas em troca de divulgação.
Mas é importante separar os fatos da impressão de que o mundo inteiro resolveu fechar as portas aos influencers.
Não há, até agora, um levantamento global que mostre hotéis e restaurantes adotando essas proibições em massa.
Existem casos. Eles estão acontecendo em diferentes lugares e passaram a alimentar uma discussão maior sobre comportamento, privacidade e os limites entre registrar uma experiência e transformar um espaço de hospitalidade em cenário.
Duas palavras incendiaram Nantucket
Nos Estados Unidos, outra história ganhou enorme repercussão.
Uma placa em Nantucket dizia simplesmente:
“NO INFLUENCERS.”
O episódio viralizou e dividiu opiniões. Mas há um detalhe importante: apesar de algumas versões da história terem associado o caso à gastronomia, a placa não estava em um restaurante.
Ela foi colocada na Four Winds Craft Guild, uma loja de artesanato e antiguidades ligada à Sylvia Antiques. Seu proprietário, John Sylvia, reclamava de visitantes que entravam no espaço basicamente para fotografar e produzir conteúdo, muitas vezes sem comprar nada.
Depois, ele explicou que a placa havia começado como uma brincadeira.
A repercussão, porém, mostrou que o assunto já estava latente.
E dentro de um hotel?
Um hotel reúne uma particularidade: é um espaço social e, ao mesmo tempo, profundamente privado.
No lobby, no restaurante ou no bar, você está em áreas compartilhadas. Mas aquele hóspede pode estar de férias com os filhos, comemorando uma data, viajando a trabalho ou simplesmente querendo desaparecer por alguns dias. Sem contar os que estão ali fazendo algo, diga-se de passagem, escondido…
Na piscina, a questão fica ainda mais evidente.
Imagine pagar caro por uma diária, escolher uma espreguiçadeira, abrir um livro e perceber que está constantemente no enquadramento do vídeo produzido ao seu lado. Ou ouvir a mesma frase ser repetida várias vezes porque a gravação não ficou boa. Ou precisar desviar de um tripé para circular por uma área comum.
Quem produz conteúdo pode enxergar uma locação. Quem está hospedado ali enxerga suas férias. E as duas coisas precisam conseguir coexistir.
Na hotelaria de alto padrão, existe algo muito importante que é a privacidade. Ela também é parte do serviço. Há hóspedes que escolhem determinados hotéis justamente pela discrição. Querem entrar, sair, tomar sol, jantar e circular sem serem observado, muito menos aparecer involuntariamente no Reels de uma pessoa que nunca viram.
Isso não significa transformar hotéis em ambientes onde celulares sejam proibidos. Também seria estranho.
Fotografar uma viagem é parte da maneira como vivemos hoje. Mostrar um hotel, compartilhar um prato, fazer uma selfie na piscina ou publicar a vista do quarto são comportamentos absolutamente incorporados à experiência de viajar.
Um celular discretamente registrando uma experiência é uma coisa. Tripé, iluminação, troca de roupa, repetição de cenas, gravação de terceiros e ocupação prolongada de áreas comuns já são outra.
Essa parece não ser uma guerra contra influenciadores. Até porque hotéis e restaurantes continuam se beneficiando enormemente do conteúdo produzido nas redes, mas sim uma discussão sobre convivência.
Durante anos, a hotelaria quis saber como criar o lobby mais fotografável, a piscina que renderia a imagem perfeita e o café da manhã capaz de parar o Instagram… Agora, e o hóspede que não quer produzir conteúdo nenhum, ele ainda consegue simplesmente aproveitar o hotel?









