
Paris, 18 de abril de 2025. Era uma tarde ensolarada, de temperatura agradável, quando desci do meu apartamento no Four Seasons Hotel George V para encontrar Rosana Pasquet. Nós nos conhecíamos apenas virtualmente, mas eu já acompanhava seu trabalho havia algum tempo e sempre a considerei uma mulher extremamente elegante. Havia algo em sua maneira de se apresentar, em sua relação com Paris e no universo em que circulava que despertava minha curiosidade. Convidei-a para um café, que acabou se transformando em algumas taças de vinho branco e em uma conversa deliciosa sobre viagens, hotéis, grandes marcas e histórias de uma vida inteira dedicada a conhecer o mundo.
Rosana chegou com a naturalidade de quem conhece bem aquele ambiente. Aos 67 anos, a brasileira nascida no estado de São Paulo reúne um repertório construído ao longo de décadas entre diferentes países, culturas e experiências. Sua relação com a Europa começou cedo, muito antes de trabalhar com turismo. Aos 12 anos, deixou o Brasil para estudar dança clássica em Cannes, onde frequentou a escola internacional de Rosella Hightower. Sua formação também incluiu experiências ligadas ao Royal Ballet de Londres e o estudo do francês, idioma que passaria a fazer parte de sua vida. Paris entrou nessa história ainda na adolescência e, ao longo dos anos, tornou-se um endereço recorrente, até se transformar em sua casa.

Enquanto conversávamos, fui percebendo que a trajetória de Rosana não seguia exatamente o caminho tradicional de quem decide abrir uma agência de viagens. Ela estudou administração, trabalhou no universo da joalheria, participou de projetos ligados às relações comerciais entre Brasil e França e chegou a comercializar apartamentos em Paris para brasileiros interessados em investir na cidade. Viajou bastante, conheceu hotéis, restaurantes e diferentes destinos ao lado do marido francês e construiu uma rede de relacionamentos que, anos depois, acabaria se tornando parte fundamental de seu trabalho.
O turismo surgiu quase como uma consequência dessa história. Em 2016, Rosana participou de um curso de imersão em gestão de luxo no ISC Paris, o Institut Supérieur de Commerce de Paris. Nos dois anos seguintes, coordenou novas edições do programa e, durante uma delas, em 2017, conheceu Renata Moreno, que viria a se tornar sua sócia. Foi Renata quem percebeu que aquele conhecimento acumulado poderia se transformar em um negócio. Rosana conhecia Paris, tinha acesso a profissionais de diferentes setores e sabia indicar lugares e experiências que dificilmente seriam encontrados em um roteiro convencional. A sugestão foi abrir uma agência de viagens. Em dezembro daquele ano, nascia a Moncompass.
“Eu não conheço o mercado de turismo. O que eu tenho são algumas vivências, algumas lembranças”, recordou Rosana ao falar sobre sua reação inicial à proposta.
Ela gostava de viajar, havia conhecido muitos lugares e sabia exatamente o que lhe agradava, mas não tinha experiência profissional como agente de viagens. Foi justamente esse olhar pessoal que acabou dando identidade à empresa, criada com Renata em São Paulo e Rosana em Paris.
A Moncompass se apresenta como uma agência franco-brasileira especializada em viagens sob medida, com serviços que abrangem hospedagem, transporte, reservas em restaurantes, ingressos, passeios e experiências personalizadas. A França permanece como um dos principais territórios de atuação, embora a empresa também tenha ampliado suas propostas para outros destinos.

Perguntei como ela definiria a agência hoje. Rosana respondeu que a Moncompass é uma agência boutique que prioriza a satisfação do cliente e não mede esforços para proporcionar uma experiência agradável. Sua explicação, no entanto, foi além do discurso habitual sobre personalização. Para ela, organizar uma viagem exige compreender quem está do outro lado, conhecer seus interesses e, principalmente, respeitar o tempo necessário para criar algo especial. Se alguém telefonar pedindo uma viagem para Paris no dia seguinte, por exemplo, ela prefere explicar que não conseguirá desenvolver um roteiro verdadeiramente personalizado sem antes conhecer as expectativas daquela pessoa.
“Você quer gastronomia? Quer ver museus? Quer andar de bicicleta? Eu não tenho nada preparado. O que eu vou fazer especialmente para você?”, questionou, reproduzindo uma situação hipotética com um cliente. Rosana contou que muitas vezes precisa conciliar interesses completamente diferentes dentro de uma mesma viagem. Um casal pode chegar a Paris com expectativas opostas: enquanto um deseja visitar museus, o outro prefere dedicar o tempo à gastronomia ou às compras. Seu trabalho consiste em encontrar um equilíbrio que permita aos dois aproveitar a experiência. “Entregar por entregar, eu me recuso a fazer isso”, afirmou.
A exigência faz sentido quando se conhece a dimensão de algumas experiências que ela já organizou. Em determinado momento da conversa, perguntei se havia alguma história especialmente inusitada, algo que tivesse exigido um trabalho diferente ou proporcionado uma experiência extraordinária a um cliente. Rosana sorriu e começou a contar sobre uma recepção que organizou para um grupo de oito brasileiras em uma boutique da Dior, em Paris.

Tudo começou com o pedido de uma cliente que desejava proporcionar uma experiência especial a um grupo de mulheres durante uma viagem à capital francesa. Rosana acionou seus contatos e conseguiu organizar uma recepção privada na maison. Os convites foram preparados com o cuidado que a ocasião exigia: cartões oficiais da Dior, personalizados com os nomes das convidadas escritos à mão com uma caneta dourada. No dia marcado, às 16h30, a boutique fechou seus três andares para receber exclusivamente o grupo. Houve apresentação de bolsas e joias, roupas para experimentar, coquetel, músico e fotógrafo. Uma das convidadas chegou a adquirir um anel que havia sido especialmente levado ao local.
Confesso que fiquei curioso para saber o resultado comercial de uma operação desse porte e perguntei, em tom de brincadeira, se alguém havia comprado alguma coisa. Rosana riu e contou que todas as participantes fizeram compras, de acessórios a bolsas e joias. A experiência foi considerada positiva também pela equipe da boutique. O episódio revela uma faceta importante de seu trabalho: a capacidade de construir relações de confiança com as grandes marcas e de compreender que experiências exclusivas precisam fazer sentido para todos os envolvidos.

Rosana contou que passou a ser bastante criteriosa ao aceitar propostas semelhantes. Conhecer alguém dentro de uma maison não significa simplesmente poder abrir suas portas para qualquer pessoa. Existe uma relação profissional a ser preservada, além da reputação de quem organiza a experiência. Ela faz questão de conhecer o perfil dos participantes antes de apresentar uma proposta a uma marca, justamente porque entende que a confiança construída ao longo dos anos não pode ser colocada em risco.
Essa conversa nos levou a outro assunto que considero especialmente interessante: a maneira como as grandes marcas de luxo recebem seus clientes e como o próprio significado de exclusividade vem sendo discutido. Contei a Rosana uma experiência que havia vivido naquela semana, quando entrei em uma boutique da Hermès interessado em comprar um lenço. Fui informado de que precisaria aguardar aproximadamente 15 minutos em um corredor. Achei a situação desagradável e decidi ir embora. O curioso é que, ao voltar para o hotel, continuei pensando no lenço que gostaria de ter comprado. O desejo pelo produto permanecia, mas a experiência havia sido péssima.
Rosana compreendeu imediatamente meu incômodo. Para ela, existe algo contraditório na ideia de transformar a dificuldade de acesso em parte da experiência de luxo. Falamos sobre as filas, a espera por determinados produtos e a maneira como alguns consumidores acabam aceitando situações desconfortáveis porque desejam muito pertencer ao universo de determinada marca. Ela considera que o mercado deveria refletir sobre essa relação, especialmente quando a experiência oferecida ao cliente deixa de proporcionar prazer.
“Eu acho meio humilhante. Eu acho que isso não é luxo”, afirmou.
Sua crítica não significa que tenha deixado de apreciar bolsas, joias ou peças de grandes maisons. Pelo contrário, Rosana conhece esse universo profundamente e demonstra admiração pela história das marcas, pelo trabalho artesanal e pela qualidade de determinadas criações. O que questiona é a ideia de que possuir um objeto seja suficiente para definir o luxo ou justificar qualquer tipo de tratamento durante a compra.

Na visão dela, parte desse comportamento está relacionada à necessidade de pertencimento social. Há consumidores que enxergam determinadas marcas como símbolos de acesso a uma elite e, por isso, estão dispostos a enfrentar longas esperas ou dificuldades para adquirir um produto. Rosana observa esse movimento com certo distanciamento, fruto de quem convive há muito tempo com o universo do luxo e passou a valorizar outras formas de privilégio.
Foi então que ela disse uma das frases que mais me marcaram naquela tarde: “Luxo é você poder ir numa exposição, luxo é você poder ter tempo, você fazer o que você quer, porque o tempo virou um luxo hoje em dia.”
E completou: “O tempo é o meu luxo.”
Achei especialmente interessante ouvir essa definição de uma mulher que conhece tão bem as grandes maisons, frequenta hotéis sofisticados e passou boa parte da vida viajando. Rosana não rejeita o luxo material, mas entende que ele não pode ser dissociado do prazer. Em suas reflexões posteriores à entrevista, voltou ao assunto e lembrou que experiências gratuitas também podem proporcionar enorme satisfação. Uma exposição, uma caminhada ou simplesmente a possibilidade de fazer algo que se deseja podem ter um valor que não depende de uma etiqueta de preço.

A conversa também me fez compreender melhor o tipo de viagem que ela procura desenvolver na Moncompass. Entre as experiências apresentadas pela agência estão visitas a residências de colecionadores, roteiros gastronômicos, encontros ligados ao universo da alta joalheria, degustações em maisons de champagne e passeios de bicicleta por regiões vinícolas. Há ainda propostas que permitem conhecer a França sob a perspectiva de seus moradores, como jantares privados com chefs e experiências que combinam arte, arquitetura e gastronomia.
O que Rosana procura oferecer, segundo me explicou, não é simplesmente uma sucessão de atividades caras. É uma viagem que corresponda aos interesses de quem está viajando. Ela contou sobre clientes que sobrevoaram Paris de helicóptero e sobre roteiros que combinam passeios de bicicleta, vinhedos e experiências gastronômicas. A agência também organiza viagens para famílias, casais e grupos com interesses específicos, sempre procurando adaptar a programação ao perfil dos participantes.

Quis saber, então, quais lugares indicaria para alguém que deseja conhecer uma Paris diferente daquela que aparece nos cartões-postais. Rosana me enviou posteriormente uma seleção de endereços que revela sua intimidade com a cidade. Um deles é a Cité Florale, no 13º arrondissement, um pequeno conjunto de ruas residenciais onde casas e jardins criam uma atmosfera bastante diferente daquela das grandes avenidas parisienses. Também destacou os arredores do Parc Montsouris, no 14º arrondissement, especialmente o Square Montsouris, conhecido por suas casas de diferentes estilos arquitetônicos. Outro endereço é o bairro de La Mouzaïa, no 19º arrondissement, com pequenas residências originalmente construídas para trabalhadores das pedreiras da região.

São sugestões que revelam uma Paris residencial, de ruas tranquilas e construções que parecem pertencer a pequenas cidades do interior. Rosana conhece os grandes endereços da moda e da hotelaria, mas também aprecia esses lugares onde a cidade se apresenta de maneira mais discreta. É uma combinação que ajuda a explicar sua visão sobre viagens: conhecer os ícones de um destino pode ser maravilhoso, mas descobrir aquilo que está fora do circuito habitual também faz parte da experiência.
Naturalmente, não poderia passar uma tarde com Rosana no George V sem falar sobre hotéis. Perguntei como funciona sua curadoria e quais propriedades considera especialmente interessantes em Paris. Ela explicou que procura conhecer pessoalmente os estabelecimentos que recomenda, realizando visitas técnicas e mantendo contato com as equipes. Entre os hotéis que mencionou durante nossa conversa estavam Ritz, Le Bristol, Hôtel de Crillon, Lutetia, Bulgari e Cheval Blanc. Sua seleção leva em consideração as preferências de cada cliente, já que nem sempre o hotel mais conhecido é necessariamente aquele que melhor corresponde ao estilo de determinado viajante.

Quando pedi que escolhesse seus favoritos, Rosana demonstrou certa dificuldade. Citou o Ritz com carinho, falou sobre o Crillon, o Bristol e o próprio George V, mas não quis estabelecer uma classificação definitiva.
Achei interessante sua maneira de avaliar essas propriedades. Rosana não se limitou a falar sobre a categoria dos apartamentos, o número de estrelas ou a reputação internacional de cada endereço. Para ela, um hotel precisa despertar alguma sensação no hóspede desde o momento da chegada. As flores, a arquitetura, o ambiente e os pequenos detalhes são elementos que contribuem para criar uma experiência memorável.
“O hotel tem que mostrar alguma coisa. Você tem que ter prazer em chegar ao hotel.”
Enquanto a tarde avançava, percebi que nossa conversa havia percorrido praticamente todos os assuntos que me interessam dentro do universo do luxo: moda, hotelaria, gastronomia, viagens, comportamento e, sobretudo, a maneira como as pessoas escolhem gastar seu dinheiro e seu tempo. Rosana falava sobre tudo isso com a familiaridade de quem acumulou experiências em diferentes momentos da vida. Sua trajetória não começou no turismo, mas foi justamente essa diversidade de vivências que lhe permitiu construir um olhar próprio sobre o setor.

Existe uma diferença importante entre conhecer os endereços mais sofisticados de uma cidade e compreender o que faz cada um deles ser especial. Rosana desenvolveu esse repertório ao longo de décadas, por meio de viagens, estudos, relações pessoais e experiências profissionais. Hoje, procura transformar esse conhecimento em viagens que correspondam aos desejos de seus clientes. Sua agência é uma extensão dessa história, mas sua visão sobre o luxo ultrapassa o universo dos negócios.
Quando a convidei para aquele café, queria conhecer pessoalmente uma mulher cujo trabalho eu admirava. Ao longo da conversa, encontrei alguém que continua curiosa, que aprecia a beleza e a sofisticação, mas que também questiona determinados comportamentos de um mercado que conhece tão bem. Rosana gosta de grandes hotéis, conhece as maisons francesas e sabe circular por ambientes exclusivos, mas não acredita que o luxo esteja necessariamente associado à dificuldade de acesso, à ostentação ou ao valor de um produto.
Voltei a pensar nisso depois do nosso encontro. Eu havia descido do apartamento para tomar um café e acabei compartilhando algumas taças de vinho branco e uma longa conversa em uma tarde agradável de Paris. Não havia uma programação extraordinária, nenhuma experiência preparada especialmente para a ocasião ou qualquer necessidade de transformar aquele momento em algo grandioso. O prazer estava justamente na conversa, nas histórias e na possibilidade de dedicar algumas horas a conhecer melhor alguém que eu admirava.
Entre tantas definições que ouvi sobre luxo ao longo dos anos, a de Rosana ficou comigo pela simplicidade e pela maneira como traduz sua própria trajetória. Depois de conhecer tantos lugares, viver diferentes experiências e construir uma vida entre o Brasil e a França, ela encontra no tempo uma das formas mais preciosas de liberdade.
Naquela tarde, no George V, tive o privilégio de compartilhar um pouco do dela. E entendi por que, para Rosana Pasquet, o tempo é o seu luxo.










