
Você chega ao hotel depois de algumas horas de viagem, fecha a porta do quarto, deixa a mala e tira os sapatos. A partir dali, anda descalço entre a cama, o banheiro, o frigobar e a janela.
Parece absolutamente normal. E provavelmente é assim para muita gente.
Charles P. Gerba não faria isso! Charles é professor de virologia da University of Arizona e especialista em microbiologia ambiental, recentemente ele contou ao The Washington Post que evita andar descalço tanto nos quartos quanto nos corredores dos hotéis.
O motivo está justamente em uma das maiores superfícies do quarto: o carpete.
Ao longo do tempo, suas fibras podem acumular poeira, células mortas da pele, resíduos de alimentos, ácaros, alérgenos, fungos e bactérias. E existe ainda aquilo que nós mesmos carregamos para dentro do hotel.
Pense no caminho percorrido pela sola de um sapato em um único dia: calçadas, aeroportos, banheiros públicos, restaurantes, elevadores, lobby, corredores. Parte desse material pode terminar justamente no chão do quarto.
E aí aparece uma questão incômoda: um carpete pode parecer perfeitamente limpo sem estar microbiologicamente limpo.
O que existe debaixo dos nossos pés?

A preocupação de Gerba não surge apenas de uma impressão pessoal.
Pesquisadores já se dedicaram a estudar o microbioma dos quartos de hotéis. Um trabalho publicado em 2020 analisou 68 quartos na Europa e na Ásia, investigando as comunidades de bactérias e fungos encontradas nesses ambientes. O tipo de piso estava entre os fatores associados à composição microbiológica dos quartos.
Outros estudos analisaram especificamente a poeira retirada de carpetes de hotéis e identificaram diferentes gêneros bacterianos. Pesquisas sobre fungos no ar de quartos também encontraram organismos como Penicillium, Cladosporium e Aspergillus, inclusive com diferenças entre ambientes com e sem carpete.
Antes que você comece a colocar os slippers na mala, é importante fazer uma distinção.
Encontrar microrganismos em um carpete não significa que andar descalço sobre ele fará alguém adoecer.
Bactérias e fungos fazem parte dos ambientes em que vivemos, inclusive de nossas próprias casas. Não há evidência de que uma pessoa saudável vá necessariamente contrair uma infecção simplesmente porque caminhou sem sapatos pelo quarto de um hotel.
A decisão de Gerba é uma precaução pessoal de um especialista que passou boa parte da carreira estudando justamente aquilo que nossos olhos não conseguem enxergar e não uma recomendação médica universal.
Aspirar resolve?
O aspirador deixa aquelas marcas bonitas no carpete que quase funcionam como um selo visual de “quarto pronto”. Mas aspirar e desinfetar não são exatamente a mesma coisa.
Pesquisas das quais Gerba participou demonstraram que caminhar sobre determinados pisos e utilizar aspiradores pode provocar a chamada ressuspensão de partículas: parte do material depositado no chão volta temporariamente para o ambiente.
O próprio pesquisador, por isso, diz evitar caminhar logo atrás de alguém que esteja aspirando um corredor de hotel. Isso não torna o aspirador um vilão. A aspiração é essencial para remover poeira, cabelos, resíduos e outras partículas e faz parte dos protocolos de housekeeping. Carpetes também passam por procedimentos periódicos de limpeza profunda.
Talvez aqueles slippers façam sentido

Hotéis de alto padrão costumam deixar um par de slippers ao lado da cama, dentro do closet ou próximo ao roupão. Muita gente nem abre a embalagem.
Quem quiser adotar a mesma precaução do pesquisador não precisa transformar a chegada ao hotel em uma operação sanitária. Basta manter chinelos nos pés, especialmente em áreas acarpetadas.
A história também revela algo curioso sobre nossa relação com a limpeza nos hotéis. Costumamos inspecionar os lençóis, reparamos nas toalhas, o cheiro… Olhamos o banheiro, há quem desconfie do controle remoto, do telefone, das maçanetas e até das almofadas decorativas, mas raramente pensamos no chão. E é justamente sobre ele que caminhamos o tempo inteiro.
Talvez aquele par de slippers esquecido ao lado da cama mereça uma segunda chance!









