Set-jetting: você escolheria um hotel porque viu em uma série? O efeito “The White Lotus” diz que sim

Patrick Schwarzenegger em The White Lotus
Patrick Schwarzenegger em The White Lotus | Foto: HBO divulgação

Uma boa série pode despertar curiosidade por um destino. The White Lotus conseguiu algo ainda mais valioso para a hotelaria: fez o público desejar o endereço exato onde a história acontece.

A piscina deixa de ser apenas cenário. O restaurante passa a ser pesquisado. As suítes despertam curiosidade. E uma pergunta inevitavelmente aparece: quanto custa se hospedar ali?

Desde sua estreia, em 2021, a produção da HBO transformou alguns dos hotéis mais espetaculares do mundo em protagonistas silenciosos de suas temporadas. Havaí, Sicília e Tailândia ganharam exposição global, mas os resorts escolhidos para as gravações receberam uma atenção ainda mais específica. E os números mostram que essa curiosidade não termina quando sobem os créditos.

Buscas pelos hotéis dispararam, agências passaram a criar roteiros inspirados na série e propriedades que já estavam entre as mais sofisticadas de seus destinos ganharam uma nova categoria de hóspede: aquele que primeiro conheceu o hotel pela televisão.

Michelle Monaghan, Carrie Coon and Leslie Bibb in season three of "The White Lotus | Foto: Fabio Lovino/HBO
Michelle Monaghan, Carrie Coon and Leslie Bibb in season three of “The White Lotus | Foto: Fabio Lovino/HBO

O fenômeno tem nome: set-jetting, quando filmes e séries passam a influenciar a escolha de uma viagem.

Segundo uma pesquisa da Expedia para 2026, 53% dos viajantes entrevistados disseram que seu interesse por viagens inspiradas em produções audiovisuais aumentou. Entre viajantes da geração Z e millennials, 81% afirmaram planejar viagens com base em lugares vistos nas telas.

A pesquisa ouviu 24 mil adultos em 18 países. A Expedia estima ainda que o set-jetting tenha potencial para movimentar cerca de US$ 8 bilhões na indústria de viagens dos Estados Unidos.

E The White Lotus tornou-se um dos casos mais interessantes dessa relação entre entretenimento, desejo e hotelaria de luxo.

Tudo começou no Havaí

A primeira temporada foi gravada no Four Seasons Resort Maui at Wailea, no Havaí. Depois da exibição, segundo informações fornecidas pelo gerente-geral da propriedade e posteriormente repercutidas pela imprensa americana, o site do resort registrou aumento de 425% nas visitas e 386% nas consultas de disponibilidade, em comparação anual.

É importante entender o dado: não estamos falando de aumento de 425% nas reservas. Estamos falando de interesse digital. Ainda assim, é uma exposição impressionante para um único hotel. Hóspedes passaram a chegar ao Four Seasons querendo reservar a famosa “Pineapple Suite”, onde parte da trama acontece.

Só havia um pequeno problema. A Pineapple Suite não existe. A acomodação utilizada como referência na série é, na realidade, a Presidential Suite Lokelani. A ficção conseguiu vender tão bem aquele universo que hóspedes passaram a procurar até um quarto inventado pelos roteiristas.

Depois veio a Sicília, o efeito ficou difícil de ignorar

Na segunda temporada, The White Lotus desembarcou em Taormina.

O protagonista hoteleiro da vez foi o San Domenico Palace, Taormina, A Four Seasons Hotel, instalado em um antigo convento com vista para o Mar Jônico.

A Hotels.com registrou um aumento de 300% nas buscas pela propriedade depois da estreia da temporada.

Novamente: buscas, não reservas. É uma diferença importante porque números enormes costumam ficar ainda maiores quando atravessam manchetes e redes sociais. Mas 300% de crescimento no interesse por um único hotel já é suficientemente impressionante sem precisar transformar busca em hospedagem.

Outro dado ajuda a dimensionar o fenômeno. A Virtuoso, rede internacional especializada em viagens de luxo, registrou crescimento de 424% nas vendas de viagens para a Sicília depois da segunda temporada.

Isso não significa que o turismo de toda a Sicília cresceu 424%. É um dado específico das vendas realizadas dentro da rede Virtuoso. A Sicília, evidentemente, não precisava de uma série americana para existir como destino desejado. Taormina também não foi descoberta pela HBO.

Mas, durante semanas, milhões de espectadores foram apresentados àquele hotel, àquela piscina, àquelas varandas e àquela vista. É difícil competir com horas de exposição sem que o espectador sequer perceba aquilo como publicidade.

Então chegou a Tailândia

Na terceira temporada, foi a vez da Tailândia. O principal cenário hoteleiro passou a ser o Four Seasons Resort Koh Samui, embora outras propriedades e locações tailandesas também tenham sido utilizadas pela produção. E antes mesmo de a temporada terminar, o mercado já acompanhava o chamado “efeito White Lotus”.

Agências começaram a montar roteiros inspirados nos lugares vistos nos episódios, enquanto a própria Autoridade de Turismo da Tailândia aproveitou a exposição internacional para promover as locações utilizadas pela série.

A Hotels.com também identificou aumento no interesse pelo hotel. Após a estreia da terceira temporada, as buscas pelo Four Seasons Resort Koh Samui cresceram 65%, enquanto o interesse pelo destino já havia aumentado após a divulgação do teaser.

Antes, queríamos conhecer o destino. Agora queremos aquele quarto

Cinema e turismo sempre tiveram uma relação íntima. Roma, Paris, Nova York, Londres… muito do imaginário construído em torno dessas cidades também passou pelas telas.

Mas The White Lotus faz algo particularmente interessante para a hotelaria. O desejo deixa de ser apenas conhecer a Sicília. Passa a ser conhecer aquele hotel na Sicília. Não basta ir a Koh Samui.

Há quem queira nadar naquela piscina, tomar um drink naquele bar, tomar café naquela varanda. É uma mudança sutil, mas importante. O hotel deixa de ser consequência da escolha do destino e passa, em alguns casos, a determinar o próprio destino.

Agora é a vez da França

A quarta temporada leva essa fórmula para um território que já conhece bastante bem o significado de luxo: a França.

A HBO confirmou que a nova história terá como pano de fundo o Festival de Cannes, com gravações em Cannes, Saint-Tropez e Mônaco, além de cenas realizadas em Paris. E já sabemos quais serão dois dos grandes protagonistas hoteleiros.

O Hôtel Martinez, na famosa Croisette, será transformado no fictício White Lotus Cannes.

Em Saint-Tropez, o Airelles Château de la Messardière aparecerá como White Lotus du Cap.

O primeiro é um dos hotéis mais reconhecíveis de Cannes e mantém uma relação histórica com o Festival de Cinema. O segundo ocupa uma propriedade do século XIX cercada por aproximadamente 13 hectares nas colinas de Saint-Tropez.

Paris também fará uma participação nessa viagem. O Mandarin Oriental Lutetia, em Saint-Germain-des-Prés, confirmou receber gravações da produção, embora a narrativa esteja concentrada principalmente na Côte d’Azur.

Segundo o jornal francês Le Monde, a produção deve gerar cerca de 17 mil noites de hotel durante as filmagens na França. E ainda nem chegamos à parte em que milhões de pessoas assistirão aos hotéis pela televisão.

Jennifer Coolidge em The White Lotus | Foto: HBO divulgação
Jennifer Coolidge em The White Lotus | Foto: HBO divulgação

Existe um preço para ficar famoso demais?

Durante décadas, alguns dos melhores hotéis do mundo construíram seu prestígio em torno de palavras como privacidade, silêncio e exclusividade.

Existe algo sedutor em entrar em um lugar extraordinário que não parece pertencer a todo mundo. Esse mesmo hotel aparece durante semanas em uma das séries mais comentadas do mundo. Milhões descobrem a piscina, o restaurante, a fachada, a vista, o bar, e querem conhecer…

Para o departamento comercial do hotel, dificilmente poderia existir notícia melhor. Para quem procura absoluta discrição, a conversa pode ser um pouco diferente, isso porque existe uma diferença entre um hotel ser desejado e um hotel virar atração turística.

O hóspede que paga uma diária de quatro dígitos pode chegar ao lobby e encontrar visitantes que entraram apenas para fotografar o cenário que reconheceram da televisão.

A piscina deixa de ser apenas piscina. Vira foto. O bar vira postagem, o lobby vira cenário para Reels, e aquele endereço que carregava certa aura de descoberta passa a integrar o roteiro de milhares de pessoas.

Patrick Schwarzenegger em The White Lotus | Foto: HBO divulgação
Patrick Schwarzenegger em The White Lotus | Foto: HBO divulgação

A ironia de The White Lotus

Há ainda uma contradição deliciosa nessa história. The White Lotus é uma sátira sobre privilégio, dinheiro, poder e o comportamento nem sempre admirável de pessoas muito ricas durante suas férias.

Durante os episódios, o público assiste a personagens cometendo todo tipo de absurdo dentro de hotéis espetaculares. Ri, julga, comenta, e depois pesquisa a diária. A série não precisa dizer que aquele hotel é maravilhoso. O espectador passa horas olhando para ele.

Quando a quarta temporada chegar às telas, o Hôtel Martinez e o Château de la Messardière estarão diante de uma audiência global por horas. Se as temporadas anteriores servirem de referência, haverá gente interessada não apenas em descobrir quem morreu ou quem matou quem.

Também haverá quem queira saber quanto custa dormir ali.

A série provavelmente continuará satirizando seus hóspedes privilegiados.

O público provavelmente continuará julgando todos eles.

Só não será surpresa se, depois do episódio, muita gente abrir o site do hotel para descobrir quanto custa fazer check-in.

The White Lotus | Foto: HBO divulgação
The White Lotus | Foto: HBO divulgação

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