Você pesquisa o nome do hotel no Google. Aparecem fotos, endereço, telefone e a opção “ligar”. Telefona, alguém atende usando o nome do hotel, explica as categorias dos quartos, informa preços e responde às dúvidas. Você faz o pagamento e viaja.
Ao chegar ao destino, descobre que não existe reserva alguma.
Foi exatamente o que aconteceu com Fabiana Justus e o marido, Bruno Levi D’Ancona, durante uma viagem a Fernando de Noronha neste feriado de 7 de Setembro.
O relato feito pela empresária e influenciadora no último sábado (5) ganhou repercussão nas redes sociais e serve de alerta para um problema que merece atenção de quem viaja: a sofisticação dos golpes envolvendo reservas de hotéis.

Segundo Fabiana, o casal havia recebido a indicação de uma hospedagem em Fernando de Noronha e fez aquilo que milhões de viajantes provavelmente fariam: pesquisou o nome do estabelecimento no Google.
O hotel escolhido era o Hamares Boutique Hotel.
Nos resultados da busca, encontraram as informações do estabelecimento e utilizaram o telefone apresentado para fazer contato. Do outro lado da linha, um homem se apresentou como funcionário do hotel e demonstrava conhecer a propriedade. Explicou as diferentes acomodações, tamanhos, características e tarifas.
A negociação pareceu legítima. Fabiana contou ainda que o pagamento foi realizado via Pix e que o nome apresentado na transação fazia referência à rede de hotéis. O casal também teria contratado outros serviços durante o atendimento, incluindo passeio de barco.
O problema só apareceu depois do desembarque em Fernando de Noronha. Ao chegarem ao verdadeiro hotel, descobriram que o telefone utilizado na negociação não pertencia ao estabelecimento e que não havia reserva registrada para o casal.
O hotel já havia alertado sobre o golpe
Há um detalhe importante nessa história.
O próprio Hamares Boutique Hotel já havia publicado um comunicado alertando hóspedes sobre criminosos que estariam utilizando sua identidade.
Segundo a mensagem reproduzida pela imprensa, golpistas estavam se passando pelo Hamares por meio de página no Google, site e WhatsApp falsos, oferecendo reservas e recebendo pagamentos.
O hotel pediu que páginas e números suspeitos fossem denunciados e informou estar tomando medidas junto às autoridades.
O caso ajuda a mostrar por que os golpes atuais podem ser difíceis de identificar. Não estamos falando necessariamente daquele site malfeito, cheio de erros de português e com uma diária de R$ 5 mil sendo oferecida por R$ 500.
A fraude pode reproduzir informações reais do hotel, conhecer suas categorias de acomodação e utilizar elementos que passam uma forte sensação de legitimidade.
Não é o único tipo de golpe envolvendo hotéis
O episódio acontece justamente quando outra fraude relacionada às reservas de hospedagem vem sendo discutida.
Em agosto, uma investigação do Projeto Comprova mostrou casos do chamado Reservation Hijacking Scam, ou “sequestro de reservas”.
Nesse esquema, a dinâmica é diferente daquela relatada por Fabiana Justus. Criminosos podem obter informações verdadeiras de reservas — como nome do hóspede, datas e dados da hospedagem — e depois entrar em contato se passando pelo hotel.
Como possuem informações corretas, conseguem tornar a abordagem extremamente convincente.
É importante fazer essa distinção: até o momento, não há indicação de que tenha sido exatamente esse o mecanismo utilizado no caso de Fabiana.
Mas os episódios mostram como a segurança digital passou a fazer parte também da experiência de reservar um hotel.
Pesquisar no Google já não basta
Talvez essa seja a parte mais desconfortável do relato.
Fabiana não conta que encontrou uma promoção mirabolante enviada por mensagem ou clicou conscientemente em um site desconhecido. Segundo ela, o contato apareceu quando pesquisou pelo hotel no Google.
Por isso, antes de fazer uma transferência, vale criar uma segunda camada de verificação.
O Ministério do Turismo recomenda conferir se o meio de hospedagem está regularmente cadastrado no Cadastur, além de verificar a procedência da empresa por outros canais.
O órgão também alerta para pequenas alterações nos nomes de perfis nas redes sociais, contas recém-criadas, comentários bloqueados e preços muito abaixo dos praticados normalmente. Negociações iniciadas por aplicativos de mensagens merecem atenção especial.
Uma boa prática é entrar no site oficial do hotel digitando o endereço diretamente ou acessá-lo a partir de perfis oficiais já conhecidos e comparar telefone, e-mail e demais contatos antes de pagar.
No caso de hotéis independentes, também pode valer uma ligação para confirmar os dados bancários antes da transferência.
E atenção: Pix, por si só, não significa golpe. O próprio sistema oficial de reservas do Hamares oferece atualmente tarifas com pagamento por depósito/Pix. O ponto central é confirmar que os dados de pagamento realmente pertencem ao estabelecimento com o qual você acredita estar negociando.
E se o pagamento já foi feito?
Quem perceber que caiu em uma fraude envolvendo Pix deve agir rapidamente.
O Banco Central orienta que a vítima entre imediatamente em contato com seu banco, informe o golpe e solicite a devolução dos valores.
A instituição pode acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), criado especificamente para situações envolvendo suspeita de fraude.
Também é recomendável registrar boletim de ocorrência e preservar comprovantes, conversas, números de telefone, prints e informações sobre a transferência.
Fabiana afirmou que pretende registrar ocorrência e tentar recuperar o dinheiro.
Para o casal, o problema teve ao menos uma solução para a viagem. Fernando de Noronha estava com alta ocupação, mas uma desistência permitiu que eles encontrassem outra hospedagem e continuassem a estadia.
A história, porém, deixa um alerta importante para qualquer pessoa que esteja planejando as próximas férias:
hoje, conferir se o hotel existe não é suficiente. É preciso conferir também se você está realmente falando com ele.









