
Yayoi Kusama morreu aos 97 anos. A artista japonesa, um dos nomes mais reconhecidos da arte contemporânea mundial, morreu em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio. A notícia, no entanto, foi anunciada somente nesta quinta-feira, 27 de agosto, por seu estúdio e pela Yayoi Kusama Foundation.
Conhecida pelas bolinhas, abóboras, instalações imersivas e pelas célebres Infinity Mirror Rooms, Kusama construiu uma obra reconhecível praticamente em qualquer lugar do mundo. E existe um endereço onde seu trabalho ganhou uma relação especialmente interessante com a viagem e a hotelaria.
É preciso ir até Naoshima, pequena ilha no Mar Interior de Seto, no Japão.
Ali está o Benesse House, projeto do arquiteto japonês Tadao Ando que nasceu, em 1992, de uma proposta bastante incomum para a época: reunir museu e hotel em uma mesma construção.
Naoshima se transformaria nas décadas seguintes em um dos destinos de arte contemporânea mais interessantes do Japão. E Kusama acabaria se tornando parte indissociável dessa paisagem.
Uma abóbora diante do mar

Quem já pesquisou uma viagem a Naoshima provavelmente conhece a imagem, mesmo sem saber exatamente onde ela foi feita.
Na extremidade de um antigo píer, diante do mar, está uma enorme abóbora amarela coberta pelas inconfundíveis bolinhas pretas de Yayoi Kusama.
A Pumpkin apareceu naquele lugar pela primeira vez em 1994, durante a exposição Open Air ’94 “Out of Bounds — Contemporary Art in the Seascape”, realizada apenas dois anos depois da abertura do Benesse House Museum.
A localização não foi um detalhe.
A obra foi concebida considerando especificamente aquele cenário. O amarelo intenso da escultura contrasta com o azul do mar e o verde da vegetação, criando uma composição que acabou se tornando uma das imagens mais reconhecidas de Naoshima.
Na época, estava entre as maiores esculturas de abóbora já produzidas por Kusama e foi concebida sabendo-se que seria a primeira delas apresentada ao ar livre.
Três décadas depois, a Pumpkin tornou-se um dos símbolos do Benesse Art Site Naoshima — e da própria ilha.
Um hotel dentro de um projeto de arte

O Benesse House não é simplesmente um hotel que possui uma boa coleção de arte.
Projetado por Tadao Ando e inaugurado em 1992, o complexo nasceu sob o conceito de coexistência entre natureza, arquitetura e arte. O museu e o hotel fazem parte da mesma estrutura e as obras ultrapassam as salas tradicionais de exposição.
Elas aparecem nos edifícios, na vegetação, junto à costa e em diferentes pontos da ilha.
Alguns artistas foram convidados a escolher lugares específicos de Naoshima e criar trabalhos a partir deles. Assim, a paisagem não funciona apenas como pano de fundo: participa da obra.
Para quem se hospeda no Benesse House, essa relação continua inclusive depois do horário convencional de visita a um museu. Hóspedes têm acesso gratuito ao Benesse House Museum e convivem com uma coleção que atravessa os espaços do complexo.
É uma maneira bastante particular de entender um hotel: não como endereço para dormir durante uma viagem cultural, mas como parte do próprio motivo da viagem.
O dia em que a Pumpkin desapareceu no mar

A relação da escultura de Kusama com a natureza também produziu um dos episódios mais curiosos de sua história.
Em agosto de 2021, durante a passagem do tufão Lupit, fortes ventos e ondas arrancaram a Pumpkin de seu píer.
A enorme abóbora foi parar no mar.
As imagens circularam pelo mundo e a escultura, danificada, foi rapidamente recuperada. Curiosamente, o Benesse Art Site costuma retirar a obra quando há previsão de tufões, mas Naoshima não estava inicialmente dentro da trajetória esperada daquela tempestade.
Depois do acidente, começaram as conversas com Kusama e as demais pessoas envolvidas na preservação da obra.
A decisão foi produzir uma nova Pumpkin, com medidas adicionais de proteção contra eventos climáticos.
Em 4 de outubro de 2022, a abóbora voltou ao mesmo píer.
É essa versão que hoje recebe os viajantes diante do mar de Naoshima.
Quando uma obra também cria um destino

A relação entre Yayoi Kusama e Naoshima ajuda a entender algo que interessa diretamente à hospitalidade contemporânea: o poder que arte e arquitetura têm de transformar a própria razão de uma viagem.
Há hotéis que compram obras de arte.
Há hotéis que criam galerias.
E existem lugares raros em que fica difícil determinar onde termina o hotel e começa o museu, onde termina a arquitetura e começa a paisagem.
O Benesse House pertence a essa última categoria.
Tadao Ando criou a arquitetura. Artistas de diferentes gerações ocuparam o território. Kusama colocou uma abóbora amarela diante do mar.
Trinta e dois anos depois de sua chegada ao píer de Naoshima, a Pumpkin permanece ali.
Yayoi Kusama se foi. Para quem desembarcar naquela pequena ilha japonesa, porém, uma das imagens mais reconhecidas de seu universo continuará esperando diante do mar.
Por dentro do Benesse House!
















