O Ca’d’Oro e o segredo de Anita Harley: um hotel, 30 anos e muitas perguntas

Nos últimos 30 dias, um hotel voltou a circular nas conversas – não por uma nova abertura, nem por um grande evento, mas por causa de uma história cheia de dinheiro, silêncio e mistério. O documentário O Testamento: O Segredo de Anita Harley, no Globoplay, trouxe de volta ao radar a trajetória da herdeira das Pernambucanas – e, junto com ela, um endereço que diz muito: o Grand Hotel Ca’d’Oro. Reinaugurado em outubro de 2016, ou seja, 10 anos após sua reabertura, o hotel volta aos ho

Durante mais de 30 anos, Anita Harley viveu ali.

Anita Harley - O Testamento - O Segredo de Anita Harley | Foto: reprodução Globoplay
Anita Harley – O Testamento – O Segredo de Anita Harley | Foto: reprodução Globoplay
o lobby do hotel Ca’d’Oro antes da reforma | Foto: reprodução
o lobby do hotel Ca’d’Oro antes da reforma | Foto: reprodução
o antigo restaurante do hotel Ca’d’Oro antes da reforma | Foto: reprodução
o antigo restaurante do hotel Ca’d’Oro antes da reforma | Foto: reprodução
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Restaurante Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação

E isso não é um detalhe.

Inaugurado na década de 1950, o Ca’d’Oro é amplamente reconhecido como o primeiro hotel de luxo de São Paulo. Antes das grandes redes internacionais chegarem à cidade, era esse o lugar que definia o que era sofisticação. Era ali que empresários, políticos e nomes influentes se encontravam — muitas vezes longe dos olhos do público.

O curioso é que o Ca’d’Oro nunca foi só um hotel. Ele nasceu como restaurante, e não qualquer um. Foi um dos primeiros a apresentar a verdadeira cozinha do norte da Itália no Brasil, tornando-se rapidamente um dos endereços mais disputados da cidade. Jantares ali não eram apenas refeições, eram encontros estratégicos.

E o perfil dos hóspedes ajuda a entender o peso do lugar.

Presidentes da República já passaram por lá. Reis europeus também. Há relatos de visitas de nomes como Nelson Mandela, além de artistas internacionais que incluíam São Paulo em suas rotas, com direito a histórias de bastidores que até hoje circulam quase como lendas. Em um momento específico da história, o hotel chegou a funcionar como uma espécie de “extensão informal” do poder político brasileiro.

Outro detalhe que diz muito sobre a época: havia regras. Não se entrava no restaurante sem gravata. E, se fosse preciso, o próprio hotel emprestava um paletó para manter o padrão. Era um ambiente com códigos próprios, elegante, rígido e extremamente seletivo.

Lobby do Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Lobby do Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Lobby do Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação
Lobby do Ca’d’Oro São Paulo após a reforma | Foto: divulgação

E é justamente por isso que a escolha de Anita Harley chama atenção.

Ela decidiu viver dentro de um dos lugares mais discretos, e ao mesmo tempo mais influentes da cidade. Um endereço que reunia poder, tradição e, principalmente, a possibilidade de passar despercebida em meio a tudo isso. Porque, no Ca’d’Oro, sempre foi possível estar cercado de tudo… sem necessariamente ser notado.

Outro ponto interessante: o hotel foi criado pela família italiana Guzzoni, com tradição na hotelaria europeia, e seu nome faz referência a um palácio em Veneza, “Casa de Ouro”. Uma escolha que, por si só, já carrega uma certa simbologia.

Décadas depois, o prédio original foi demolido. Em 2016, o Ca’d’Oro voltou à cena, totalmente reconstruído, com arquitetura contemporânea, rooftop, piscina e uma nova leitura de luxo – além de preservar parte da sua memória, inclusive no restaurante, que segue como um dos seus pilares.

Hoje, ele é outro. Mais novo, mais polido, mais atualizado.

Mas São Paulo também mudou.

E talvez seja aí que mora o contraste mais interessante. Porque, enquanto a cidade passou a concentrar hotéis que disputam atenção, hype e desejo a cada nova abertura, o Ca’d’Oro seguiu por um caminho mais silencioso. Tem história, tem tradição, tem charme – e até ganhou um certo verniz contemporâneo no lobby.

Mas não virou o endereço mais comentado. Não virou o mais disputado. E definitivamente não entrou na lista dos hotéis que hoje moldam o novo imaginário de luxo da cidade, como Rosewood, Fasano, Emiliano, Pulso, Tivolli Mofarrej e mais alguns…

No fim, talvez isso diga muito sobre ele.

Um outro hotel também é citado algumas vezes no doc, o Copacabana Palace, o endereço, dessa vez no Rio, era um dos queridinhos de Anita, que escolheu a propriedade por diversos anos consecutivos para virar o ano.

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