Desaprendemos a descansar! Quando foi a última vez que você viajou e realmente desligou?

Esse texto começou durante uma viagem.

Eu estava em um lugar lindo. Praia, natureza, uma paisagem daquelas que, teoricamente, deveriam fazer a gente esquecer de tudo por alguns dias. Só que, em determinado momento, me dei conta de que eu não estava exatamente ali.

Eu estava respondendo alguns e-mails. Olhando um grupo que tenho comigo mesmo no WhatsApp com uma lista de coisas que eu tenho que fazer, fico batendo o olho ali pra não me esquecer mesmo. Detalhe, descobri que vários amigos em comum fazem a mesma coisa. Eu estava também escolhendo uma foto que precisava postar, dentre as milhares que tinha com o mesmo cenário. Também terminava de editar um vídeo. Pensando no que ainda precisava resolver. O lugar era maravilhoso e, mesmo assim, eu sentia uma angústia enorme em ter que terminar de fazer minhas coisas. Meu cérebro parecia borbulhar, a sensação era e é quase sempre que eu estou atrasado ou devendo algo, de estar perdendo alguma coisa, algum prazo, algum edital, algum trabalho, alguma oportunidade… Que horror!

Foi quando me perguntei: o que está acontecendo comigo?

Vinicius Belo na Pousada Ecológica Akanã | Pôr do Sol | Fernando de Noronha | Foto: Check Hotels
Vinicius Belo na Pousada Ecológica Akanã | Pôr do Sol | Fernando de Noronha | Foto: Check Hotels

Eu tinha viajado para descansar e curtir o aniversário de 40 anos de uma amiga, estava diante de tudo aquilo que normalmente buscamos quando queremos sair da rotina e, ainda assim, minha cabeça continuava funcionando como se eu estivesse no meio de um dia comum de trabalho.

Talvez esse seja um dos meus maiores desafios hoje. E não apenas quando chego a um hotel. É um desafio para a minha vida: conseguir estar onde eu estou.

Parece simples escrever isso. Na prática, tem sido muito difícil.

A gente acorda e olha o celular. Trabalha olhando o celular. Almoça respondendo alguma coisa. Chega a um lugar lindo e pensa na foto… Filma o pôr do sol antes mesmo de olhar para ele. Viaja e continua disponível o tempo inteiro.

E foi a partir dessa inquietação que comecei a pesquisar sobre o assunto.

Descobri alguns números que me fizeram pensar bastante.

Em uma pesquisa realizada pela Ipsos em 31 países, em 2024, 45% dos entrevistados apontaram a saúde mental como um dos principais problemas de saúde enfrentados em seus países. Em 2018, eram 27%. No Brasil, o índice chegou a 54%. O estresse também aparece entre as grandes preocupações apontadas no levantamento.

Dois anos depois, quando olhamos especificamente para o comportamento de quem viaja, encontramos algo que conversa diretamente com tudo isso.

O relatório de tendências de viagens da Hilton para 2026, realizado em parceria com a Ipsos a partir de uma pesquisa com 14 mil viajantes de 14 países, incluindo o Brasil, aponta uma busca muito clara por descanso. Para 56% dos entrevistados, descansar e recarregar as energias é a principal motivação para uma viagem de lazer. Outros 37% querem passar tempo na natureza e 36% mencionam melhorar a saúde mental.

Entre os brasileiros, 52% disseram acrescentar dias antes ou depois de viagens em família para conseguir passar algum tempo sozinhos.

Talvez não seja só comigo.

Estamos cansados. E, ao mesmo tempo, parece que desaprendemos um pouco a descansar.

Estamos cansados. E, ao mesmo tempo, parece que desaprendemos um pouco a descansar.

Às vezes saímos de férias e criamos uma agenda, uma lista de coisas pra ver, comprar… Sem contar aquela listinha de favoritos que fazemos no Instagram, acompanhando um monte de “influenciadores” que nos vendem aquela vida perfeita, colorida e tranquila. Queremos conhecer tudo, experimentar tudo, fotografar tudo, postar tudo. E existe ainda uma pressão vinda de nosso interior para mostrar que estamos aproveitando.

Mas será que estamos?

Tenho pensado que escolher um hotel também pode ser escolher como eu quero me sentir durante uma viagem.

Nem sempre preciso de uma programação enorme. Às vezes quero justamente um quarto silencioso, uma cama confortável, acordar sem despertador, tomar café sem olhar para o relógio. Caminhar. Entrar na piscina, aproveitar a sauna, o spa, o silêncio. Fazer uma massagem. Ler. Ficar perto da natureza. Deixar o celular no quarto. Viver o quarto, o ambiente, o jardim.

Ou simplesmente não fazer nada.

E não fazer nada, hoje, talvez seja uma das coisas que mais exijam de nós.

Curiosamente, enquanto escrevo este texto, a televisão está ligada. E uma reportagem sobre saúde mental entra no ar. Eu paro por alguns segundos e olho para a TV.

É difícil ignorar a coincidência.

Vinicius Belo em Fernando de Noronha | Foto: Check Hotels
Vinicius Belo em Fernando de Noronha | Foto: Check Hotels

Não quero misturar as coisas. Uma viagem não cura um transtorno mental. Um hotel não é consultório e férias não substituem tratamento. Mas ouvir uma reportagem sobre saúde mental justamente enquanto escrevo sobre a nossa dificuldade de parar, descansar e estar presente me faz voltar à mesma pergunta: quando foi que ficou tão difícil simplesmente estar onde estamos?

Talvez por isso eu tenha prestado tanta atenção ao que o Global Wellness Institute aponta entre as tendências do turismo de bem-estar para 2026.

Uma delas é o chamado Cocooning Wellness: viagens restauradoras, com menos estímulos, maior contato com a natureza e a intenção de se afastar por alguns dias das pressões cotidianas.

Outra é o Nervous System Reset. Depois de anos de excesso de estímulos, estresse e sobrecarga digital, aparecem experiências ligadas a ritmos mais lentos, silêncio, natureza, respiração, meditação e desconexão digital.

Há ainda duas ideias que dizem muito sobre o momento que estamos vivendo: a busca pelo descanso profundo e a privacidade como luxo.

Silêncio. Espaço. Discrição. Pouca gente. A possibilidade de não ser encontrado por algumas horas.

Numa boa, eu acho que o luxo esteja ficando menos barulhento.

A própria hotelaria começou a olhar para o sono de outra maneira. Entre as tendências apontadas pelo Global Wellness Institute para 2026 está também o crescimento do chamado sleep tourism, com viagens e experiências de hospitalidade pensadas para favorecer um descanso de melhor qualidade.

Mas, quando penso naquela viagem que deu origem a este texto, não são tendências ou números que mais me interessam.

É perceber que eu estava diante do mar e não conseguia simplesmente olhar para o mar.

Isso me incomodou.

Porque viajar sempre foi uma das coisas que mais amo fazer. E não quero transformar uma viagem em outro lugar onde preciso produzir, responder, entregar e estar disponível o tempo inteiro.

Talvez eu precise reaprender a viajar.

E acredito que os hotéis podem ter um papel importante nisso. Na hora de escolher onde ficar, comecei a prestar ainda mais atenção ao silêncio, à natureza, à qualidade do sono, aos espaços de descanso, à privacidade e à possibilidade de diminuir o ritmo.

Hoje, antes de pensar apenas “para onde eu quero ir?”, estou tentando acrescentar outra pergunta:

“Como eu quero estar enquanto estiver lá?”

Ainda não consigo desligar como gostaria. Continuo olhando o WhatsApp. Continuo pensando no trabalho. Continuo querendo resolver coisas que provavelmente poderiam esperar. Continuo pensando nas contas, nos boletos, nos conteúdos, em vender mais, em faturar mais, em ter o corpo perfeito, no curso que eu quero fazer, e até em coisas que eu quero comprar… Continuo pensando nas séires e filmes que quero assistir e ainda não consegui. Sim, continuo.

É um exercício.

Mas naquele dia, naquela varanda de frente ao mar, eu percebi uma coisa muito simples: não adianta viajar para um lugar incrível se a nossa cabeça continua presa exatamente no lugar de onde tentamos sair.

Acho que uma boa viagem não seja aquela em que fazemos tudo.

Talvez seja aquela em que, por alguns dias, conseguimos finalmente estar presentes.

E isso, na minha opinião, começa a parecer um luxo enorme.

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