
Uma igreja construída em 1931, no bairro de Silver Lake, em Los Angeles, foi transformada em um hotel boutique de 25 quartos. Inaugurado em 14 de setembro, o Hotel Lucile preserva elementos da arquitetura original, como vitrais, arcos, vigas de madeira e a cruz no alto da torre. Onde antes aconteciam celebrações religiosas, hoje funcionam um restaurante e um bar.
A conversão do edifício, no entanto, foi marcada por um processo que se estendeu por mais de uma década, com resistência de moradores, disputas envolvendo o imóvel e mudanças na gestão do empreendimento. O resultado é um hotel que combina hospitalidade contemporânea com a história de uma construção que já abrigou uma companhia de teatro e um mercado de antiguidades.
O projeto, conduzido pelo grupo hoteleiro Casetta em parceria com o estúdio de arquitetura Electric Bowery, preservou elementos da construção original, como vitrais, arcos, vigas de madeira e até a cruz que permanece no alto do edifício. A proposta foi adaptar a antiga igreja às necessidades da hospitalidade contemporânea sem apagar completamente sua identidade arquitetônica.
Mas a história por trás da transformação é tão interessante quanto o resultado. Antes de se tornar hotel, o imóvel teve diferentes ocupações, permaneceu desativado por períodos e atravessou mais de uma década de controvérsias envolvendo moradores, licenças municipais e uma disputa financeira que terminou em falência.
Construído em 1931 para abrigar a Bethany Presbyterian Church, o edifício foi projetado pelo arquiteto Scott Quintin em estilo neorromânico. Sua fachada clara, os arcos monumentais e a torre do sino fizeram da construção uma presença marcante na esquina da Griffith Park Boulevard com a Lucile Avenue.
Durante boa parte do século XX, o espaço funcionou como igreja. Entretanto, sua importância para Los Angeles ultrapassa a história religiosa.
Na década de 1960, o imóvel abrigou atividades da East West Players, companhia teatral fundada em 1965 por artistas asiático-americanos que buscavam ampliar as oportunidades de representação nos palcos e nas telas. A organização se tornaria uma referência para o teatro asiático-americano nos Estados Unidos.
Posteriormente, o endereço também funcionou como mercado de antiguidades, recebeu produções audiovisuais e serviu de cenário para uma experiência teatral imersiva de terror chamada Delusion, em 2013.
A transformação em hotel, portanto, representa mais uma etapa na trajetória de um edifício que já teve diferentes funções ao longo de seus 95 anos.
Uma transformação que levou mais de uma década

O caminho até a inauguração não foi simples.
Segundo reportagem do Los Angeles Times, a incorporadora Dana Hollister assumiu anteriormente o contrato de arrendamento do imóvel e buscou autorizações para convertê-lo em hotel, incluindo a possibilidade de oferecer bebidas alcoólicas e realizar eventos.
A proposta enfrentou resistência de moradores e comerciantes, preocupados principalmente com os impactos no trânsito e na disponibilidade de estacionamento. Apesar das objeções, as licenças foram aprovadas em 2014.

O empreendimento, no entanto, não avançou como previsto. Hollister declarou falência em 2018 e, dois anos depois, vendeu seus direitos sobre o imóvel.
Foi nesse momento, em 2020, que o grupo Casetta assumiu o contrato de arrendamento de longo prazo com o Presbytery of the Pacific, organização presbiteriana proprietária do edifício.


A inauguração do Hotel Lucile encerra, assim, um longo período de incertezas sobre o futuro da construção. Algumas preocupações da vizinhança, contudo, permanecem: o hotel não possui estacionamento próprio e depende de serviço de manobrista e vagas nas ruas próximas para atender hóspedes e frequentadores do restaurante.
Arquitetura: a igreja permanece como protagonista

A arquitetura e os interiores foram desenvolvidos pelo Electric Bowery, estúdio fundado por Lucia Bartholomew e Cayley Lambur, com sede em Venice Beach.
Em vez de eliminar as características religiosas do imóvel, as arquitetas decidiram incorporá-las à nova experiência.
As portas monumentais de madeira continuam marcando a entrada. No interior, os vitrais restaurados filtram a luz natural, enquanto os arcos e o trabalho original de madeira permanecem visíveis. A antiga nave, com seu pé-direito elevado, tornou-se o principal espaço de convivência do hotel.
A cruz também foi mantida no alto do edifício e continuará iluminada durante a noite. O antigo sino, por sua vez, permanecerá em silêncio.

O projeto combina esses elementos históricos com mobiliário contemporâneo, cores intensas e uma seleção de obras de arte. Segundo o Electric Bowery, a inspiração para os interiores foi imaginar a residência europeia de uma anfitriã excêntrica e viajada, com referências à colecionadora de arte Peggy Guggenheim.
O resultado procura se distanciar da estética padronizada de grandes redes hoteleiras e criar ambientes com uma atmosfera residencial, nos quais a história do edifício permanece perceptível.
Apenas 25 quartos e uma suíte com pátio privativo
O Hotel Lucile possui apenas 25 acomodações, distribuídas em seis categorias.
Os quartos variam de aproximadamente 20 m² a 50 m², com configurações que aproveitam características da antiga construção, como janelas com esquadrias de aço, pisos de madeira e pé-direito elevado.
A principal acomodação é a Lucile Suite, que oferece sala de estar e um pátio privativo próximo à torre do sino.

Entre as comodidades estão roupas de cama da Parachute, produtos de banho Aesop e frigobares abastecidos com uma seleção de produtos do Erewhon, mercado conhecido em Los Angeles por sua oferta de alimentos e produtos premium.
A experiência inclui ainda um carrinho de martínis que circula pelo hotel, levando o serviço de coquetelaria até os hóspedes.
Na área externa, o antigo pátio da igreja recebeu uma pequena piscina com espreguiçadeiras. O terraço oferece vistas para Silver Lake e para a paisagem urbana de Los Angeles.
Onde ficava a nave da igreja, agora funciona um restaurante
Uma das principais atrações do empreendimento é o Sous Sous, restaurante instalado no antigo santuário da igreja.
O espaço preserva os vitrais e o teto elevado da construção original, agora combinados a um bar central, mesas e banquetas. O antigo palco foi adaptado para receber refeições privativas, enquanto o mezanino do coro ganhou uma nova função como área para café e bebidas.

Com capacidade para aproximadamente 120 pessoas, o restaurante apresenta um cardápio que aproxima duas tradições gastronômicas: a cozinha do sul da França e a do sul dos Estados Unidos.
Sob o comando do chef Patrick Costa, o menu inclui frutos do mar, ostras com pimenta de Espelette, crudo de hamachi com amendoim da Virgínia e bouillabaisse para duas pessoas, preparada com mariscos, mexilhões, camarões e caldo de açafrão.
No bar, Lee Zaremba desenvolveu uma carta de coquetéis com referências a Nova Orleans, incluindo uma releitura do clássico Sazerac.
A gastronomia também funciona como uma porta de entrada para o público local: mesmo quem não estiver hospedado poderá conhecer parte da arquitetura histórica por meio do restaurante.
Arte e cultura fazem parte da experiência
A ligação do edifício com a cultura foi incorporada ao conceito do novo hotel.
Em parceria com a Rhett Baruch Gallery e a Uprise Art, o Lucile apresenta uma coleção rotativa de obras de artistas locais e regionais. Segundo o Los Angeles Times, mais de 100 obras contemporâneas integram a programação artística, muitas delas disponíveis para compra.
A artista Erin Lynn Welsh criou dois murais inspirados nas paisagens de Los Angeles: um faz referência às montanhas de San Gabriel, enquanto o outro retrata a vegetação de Elysian Park.




A programação também prevê experiências ligadas ao bairro, como atividades com artistas, parcerias com livrarias e iniciativas voltadas à comunidade.


A intenção declarada pelo grupo Casetta é fazer do Lucile não apenas um endereço para turistas, mas também um espaço de encontro para os moradores de Silver Lake.
Quanto custa se hospedar no Hotel Lucile?
De acordo com o Los Angeles Times, as tarifas anunciadas para a abertura começavam em US$ 441 por noite, acrescidas de uma taxa de comodidades de US$ 50, sem considerar eventuais impostos. Os valores variam conforme a data e a categoria escolhida.
O empreendimento é o sexto endereço do portfólio Casetta, grupo especializado na recuperação e transformação de imóveis com história. Entre suas propriedades estão o Casa Cody, em Palm Springs, e o The Surfrider, em Malibu.


Em Silver Lake, o Hotel Lucile representa uma alternativa aos grandes hotéis de luxo concentrados em regiões mais tradicionais de Los Angeles.
A experiência não se resume a dormir em uma antiga igreja. É a oportunidade de conhecer um edifício que acompanhou diferentes momentos da cidade e que agora encontra na hospitalidade uma nova forma de permanecer em atividade.
Entre os vitrais de 1931, os quartos contemporâneos e o restaurante instalado onde antes se reuniam os fiéis, o Lucile mostra como uma construção histórica pode ganhar uma nova função sem perder os elementos que contam sua história.

Endereço: 1629 Griffith Park Boulevard, Silver Lake, Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos.









