A Fazenda Pau D’Alho, em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, pode ser transformada em um hotel de luxo por meio de um projeto de concessão do governo federal, segundo informações do g1. O imóvel é um dos marcos históricos do país por ter recebido Dom Pedro I em agosto de 1822, semanas antes da Proclamação da Independência!
Construída em 1818 para a produção de café, a fazenda integra o conjunto histórico do Vale do Paraíba e é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, segundo dados do próprio instituto e do Ministério do Turismo. A proposta prevê a construção de um hotel com 60 quartos, com diária média estimada em cerca de R$ 1,6 mil, além de estruturas de apoio voltadas ao turismo de alto padrão. O novo edifício seria implantado fora da área tombada, mas conectado ao conjunto histórico.

O projeto faz parte do Programa Revive, iniciativa do governo federal inspirada em modelos internacionais de concessão de imóveis históricos à iniciativa privada, de acordo com informações do Ministério do Turismo. O contrato em análise prevê uma concessão de 45 anos. Segundo o plano de negócios divulgado pela pasta, os investimentos totais ao longo do período devem alcançar R$ 63,1 milhões, dos quais aproximadamente R$ 10,9 milhões seriam destinados à restauração das edificações históricas e o restante à construção e operação do hotel.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que atua como assessor técnico da proposta, projeta que, a partir do décimo ano da concessão, a receita anual do empreendimento possa chegar a R$ 34,5 milhões. Ainda segundo o banco, a maior parte desse valor estaria relacionada à operação do hotel, com receitas adicionais provenientes de atividades comerciais, serviços turísticos e cobrança de ingressos.
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Apesar das garantias oficiais de preservação, o projeto enfrenta resistência significativa de moradores e entidades locais. Em entrevistas ao g1, representantes do Instituto Pau D’Alho afirmam que a escala do empreendimento é incompatível com a realidade da cidade. São José do Barreiro tem cerca de 3,8 mil habitantes e infraestrutura limitada. Segundo o instituto, o fluxo de visitantes estimado pelo estudo de viabilidade (que projeta até 45 mil hóspedes por ano) seria incompatível com a capacidade do município, especialmente nas áreas de saúde, abastecimento de água e mobilidade.
Há também preocupação com possíveis impactos ambientais. De acordo com o Instituto Pau D’Alho, a fazenda está localizada em área de Mata Atlântica e próxima a cursos d’água. A entidade aponta que o projeto prevê intervenções em pontos sensíveis do conjunto tombado, incluindo acessos sobre calçamentos antigos, o que poderia comprometer estruturas seculares devido ao aumento do tráfego e do peso sobre essas áreas.
Outro eixo central da crítica envolve a memória da escravidão. Moradores ouvidos pelo g1 argumentam que a Fazenda Pau D’Alho foi um espaço de trabalho escravizado e que a transformação do local em um empreendimento de luxo pode resultar no esvaziamento desse passado. Para eles, há o risco de se criar uma narrativa desconectada da história social do lugar, substituindo a função educativa por uma lógica predominantemente comercial.
“Dentro desse espaço, nessa atmosfera de luta, não cabe um hotel. É o apagamento da história do povo preto construir, por exemplo, uma loja de conveniência ali. Criar uma falsa imaginação de luxo em um lugar que foi de trabalho”, disse uma das pessoas ao portal.

O Ministério do Turismo, em nota oficial, afirma que a concessão não representa privatização do bem, que continuará sendo patrimônio público federal. Segundo a pasta, o modelo proposto segue o princípio da mínima intervenção, mantém o acesso público às áreas históricas e estabelece que espaços como a antiga senzala sejam destinados a atividades educativas e de valorização da memória da escravidão. Qualquer intervenção, de acordo com o governo, deverá ser previamente aprovada pelos órgãos de preservação.
Atualmente, o projeto está em fase de consulta pública, etapa em que a sociedade pode enviar sugestões e críticas antes da decisão sobre a abertura da licitação, conforme informado pelo Ministério do Turismo. O prazo para contribuições segue até o início de fevereiro. Até lá, o futuro da Fazenda Pau D’Alho permanece indefinido.
