No coração do mar Adriático, a cerca de 18 quilômetros da costa albanesa, uma ilha coberta por vegetação densa, ruínas militares e praias de águas translúcidas volta a despertar a cobiça de investidores internacionais. Sazan, território praticamente desabitado desde o fim da Guerra Fria, está prestes a ganhar um novo papel no mapa do turismo global, agora como cenário de um projeto bilionário liderado por Jared Kushner, genro de Donald Trump, e sua esposa, Ivanka.

De acordo com o Le Monde, Kushner teria mobilizado sua rede de contatos políticos e empresariais para negociar com o governo da Albânia a concessão da ilha, classificada como área protegida. O plano prevê a construção de um complexo de luxo em meio ao que antes foi uma base militar estratégica. Segundo o The Guardian, o investimento pode ultrapassar US$ 1 bilhão, abrangendo 1.400 acres (cerca de 5,6 km²), praticamente toda a superfície de Sazan!
“Estamos trazendo os melhores arquitetos e marcas para criar algo extraordinário”, disse Ivanka em 2024, durante entrevista ao podcast de Lex Fridman, ignorando qualquer polêmica.
Um passado de guerra e isolamento
Durante séculos, Sazan foi disputada por romanos, venezianos, gregos e italianos. Mas foi no regime comunista de Enver Hoxha (1946–1991) que a ilha ganhou um ar de ficção distópica. Transformada em fortaleza militar, abrigava cerca de 150 famílias de soldados e 3.600 bunkers espalhados entre a mata e os penhascos, além de 10 quilômetros de túneis destinados a armazenar munição e resistir a um eventual ataque nuclear.
Com o colapso do comunismo, em 1991, o local foi abandonado às pressas. Desde então, apenas um pequeno destacamento de soldados e um cão de guarda permanecem na ilha… uma cena quase congelada no tempo, relatada tanto pelo Le Monde quanto pelo Guardian. Placas com símbolos de caveira ainda alertam sobre áreas com munições não detonadas, vestígios de saques e confrontos dos anos 1990.
Hoje, o silêncio é quebrado apenas pelo barulho do mar e dos barcos turísticos que ancoram brevemente no porto enferrujado. Poloneses, italianos e outros visitantes descem por uma hora, exploram as ruínas e mergulham nas enseadas de água turquesa, um intervalo entre a curiosidade histórica e o exotismo do esquecimento.
Do bunker ao resort
É nesse cenário que o casal Kushner–Trump pretende construir um resort de “luxo sustentável”. A empresa Affinity Global Development, de Kushner e do executivo Asher Abehsera, descreve o projeto como um “refúgio esculpido pela natureza” -vilas e hotéis integrados à paisagem, sem “impor” a arquitetura sobre o terreno.
A visão seduz, mas também preocupa. Olsi Nika, diretor da ONG EcoAlbania, lembra que Sazan integra o Parque Marítimo Nacional Karaburun–Sazan, onde qualquer obra de grande porte exige estudos rigorosos de impacto ambiental. “As águas e praias num raio de dois quilômetros são protegidas. Construções e tráfego de iates podem desequilibrar o ecossistema”, alertou ao Guardian.
Ainda segundo o Le Monde, autoridades locais admitem que parte da negociação com os Trump ocorreu em sigilo até a assinatura do acordo preliminar, no fim de 2024, o que alimentou críticas da oposição e de ambientalistas.
O apoio do governo e a estratégia regional
O primeiro-ministro Edi Rama, contudo, defende o projeto como uma aposta estratégica para reposicionar a Albânia entre os destinos de alto padrão do Mediterrâneo. “Precisamos do turismo de luxo como um deserto precisa de água”, disse Rama, que concedeu à Affinity o status de investimento estratégico, garantindo isenção fiscal e infraestrutura pública durante a fase de construção.
Quem visita Sazan descreve a paisagem como algo entre o pré-histórico e o surreal: samambaias gigantes, pinheiros marítimos, loureiros e arbustos mediterrâneos formando um labirinto verde. Entre as árvores, surgem ruínas de escolas, hospitais, teatros e quartéis… lembranças de uma ilha que já abrigou uma pequena cidade militar e agora se prepara para renascer sob o signo do luxo. “Fiquei surpreso que algo assim ainda existisse no meio do Mediterrâneo, intocado, esperando ser reimaginado”, contou Kushner.


