por Vinicius Belo
Era agosto em Madri, pleno verão. Os termômetros marcavam altas temperaturas, o ar seco fazia cada passo mais intenso e o sol parecia nunca se pôr. Ainda assim, existe algo na capital espanhola que faz qualquer calor valer a pena: atravessar a porta centenária do Ritz Madrid. Entrar ali é como chegar a um paraíso – um refúgio onde não há espaço para tristeza, desconforto ou rotina chata. Um lugar exclusivo, impregnado de história e de um perfume inconfundível que domina o lobby e que, felizmente, pode ser levado para casa. Foi a primeira coisa que eu decidi comprar. O Ritz não é apenas um hotel; é um monumento da hotelaria mundial, o primeiro de luxo da capital espanhola, guardião de memórias glamorosas e palco de visitas memoráveis.

A verdadeira história
Erguido por iniciativa do rei Afonso XVIII, o Ritz Madrid nasceu do desejo de dotar a capital espanhola de um hotel capaz de rivalizar com os grandes palácios europeus. Após suas viagens a Londres e Paris, o monarca percebeu que Madri carecia de um espaço de hospitalidade à altura da realeza e dos dignitários estrangeiros que ali desembarcavam. Assim, em 1908 começou a ser erguido, sob projeto do arquiteto francês Charles Mewès, em parceria com o espanhol Luis de Landecho. O terreno escolhido, ao lado do Parque do Retiro e do Museu do Prado, integrava o coração cultural da cidade. A minha suíte se chamava Suíte Prado e fica bem de frente para o museu.
Com inauguração em 2 de outubro de 1910, o hotel rapidamente se consolidou como epicentro da vida elegante madrilenha. Seus interiores, com tapetes da Real Fábrica de Tapices, porcelanas de Limoges e mobiliário requintado, receberam a realeza, aristocratas, intelectuais e artistas. Os salões tornaram-se palco de bailes, recepções oficiais e encontros da alta sociedade. Em 1926, o hoteleiro belga Georges Marquet assumiu a propriedade, ampliando a reputação do Ritz como símbolo de sofisticação e etiqueta.
O prestígio, no entanto, não o poupou de tempos turbulentos. Durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o hotel foi convertido em hospital de campanha. Ali faleceu, em 1936, o líder anarquista Buenaventura Durruti, transformando o edifício em palco involuntário da história política espanhola. No pós-guerra, sob o regime franquista, o Ritz manteve-se ativo, mas dentro de rígidos códigos sociais: não era incomum ver hóspedes barrados por não trajarem gravata. Apesar disso, nos anos 1950 e 1960 o glamour voltou a brilhar, com hóspedes ilustres como Ava Gardner, Grace Kelly e Frank Sinatra.

A partir da década de 1970, o hotel enfrentou declínio relativo, alternando mudanças de propriedade. Passou por mãos de empresários espanhóis, pelo grupo britânico Trusthouse Forte, pela Granada e, mais tarde, pelo grupo Orient-Express (Belmond), que buscou devolver parte do esplendor original. Ainda assim, a aura de palácio histórico sempre resistiu, mesmo em meio às transformações.
Uma nova era
Um novo capítulo se abriu em 2015, quando a joia madrilenha foi adquirida pelo consórcio formado pelo grupo Mandarin Oriental Hotel Group, hoje com um total de 43 propriedades em todo o mundo, 20 das quais são de sua propriedade total ou parcial, e pelo conglomerado Olayan, em transação avaliada em cerca de €130 milhões. A nova gestão anunciou então uma das reformas mais ambiciosas da história do Ritz, com um investimento adicional de mais de US$100 milhões. O objetivo era claro: restaurar a grandiosidade arquitetônica do hotel e, ao mesmo tempo, inseri-lo no padrão contemporâneo de luxo.
A remodelação, conduzida pelo arquiteto espanhol Rafael de la Hoz e pela dupla francesa Gilles & Boissier, devolveu luz ao icônico átrio central com sua cúpula de vidro, modernizou quartos e suítes — hoje são pouco mais de 150 — e criou novos espaços gastronômicos e de bem-estar. Em meio às obras, um acidente trágico em 2018 resultou no desabamento parcial de uma laje, mas a reforma prosseguiu e culminou na aguardada reabertura em 16 de abril de 2021, já sob o nome Mandarin Oriental Ritz, Madrid.



Desde então, o hotel voltou a ocupar o posto de ícone absoluto da hotelaria de luxo na capital espanhola. Inserido no “Triângulo de Ouro da Arte”, ao lado de museus como o Prado, o Thyssen-Bornemisza e o Reina Sofía, o Ritz combina hoje o esplendor histórico de um palácio real com a excelência contemporânea que caracteriza a Mandarin Oriental. Além disso, a nova cena gastronômica, sob curadoria de chefs estrelados, vem reforçando sua posição como destino não apenas de hóspedes, mas também da própria cidade — exemplo disso é a recente abertura da La Marisquería del Ritz, no Champagne Bar, um templo dedicado aos frutos do mar.





Mais de um século após sua inauguração, o Ritz Madrid segue sendo palco de grandes encontros, guardião de histórias da Espanha e ponto de encontro da realeza, celebridades e viajantes exigentes. Agora sob a bandeira da Mandarin Oriental, ele confirma sua condição de uma das maiores jóias da hotelaria mundial — um monumento vivo onde tradição e modernidade se entrelaçam com a elegância de sempre.
Detalhe, o hotel fará 115 anos no próximo dia 02 de outubro.
Vale conhecer este céu ou paraíso, como você preferir chamar, vale conhecer!
