Por: Luiz Eugênio de Castro

Em um país tão jovem quanto o Brasil, preservar a memória arquitetônica e cultural por meio da hotelaria é um feito raro… e ainda mais raro quando essa história atravessa décadas com charme, requinte e serviço de excelência. Entre edifícios que testemunharam transformações políticas, artísticas e sociais, alguns hotéis históricos seguem em plena atividade, oferecendo muito mais que hospedagem: são verdadeiros marcos da nossa identidade.

De palcos de festas aristocráticas a obras-primas do modernismo, esta seleção reúne seis hotéis emblemáticos que resistiram ao tempo e hoje combinam passado glorioso com experiências de luxo. Do Copacabana Palace, Hotel Nacional, ao monumental Grande Hotel de Araxá, passando por ícones como o Ca’d’Oro, Brasília Palace e o Fera Palace em Salvador, estes endereços provam que a história bem cuidada também pode ser sinônimo de exclusividade.

Copacabana Palace (Rio de Janeiro)

Inaugurado em 13 de agosto de 1923, a pedido do então presidente Epitácio Pessoa, foi idealizado por Octávio Guinle e Francisco Castro Silva. Projetado pelo arquiteto francês Joseph Gire, inspirado nos grandes hotéis da Riviera Francesa, o edifício é ícone da arquitetura art déco.

Marcado por sua tradição em receber celebridades e figuras políticas (como Mistinguett na inauguração, e até o episódio do comício com Washington Luís em 1928), o Copacabana Palace também abrigou cassino até 1946. Depois de períodos de decadência, passou por restauro e se consolidou no portfólio internacional da Belmond (hoje parte da LVMH). Atualmente oferece 239 acomodações, piscinas, spa de luxo e duas opções gastronômicas, permanecendo um dos símbolos aristocráticos do turismo brasileiro.

Copacabana Palace | Foto: Divulgação
Copacabana Palace | Foto: Divulgação
Copacabana Palace | Foto: Divulgação
Copacabana Palace | Foto: Divulgação
Brasília Palace Hotel (Brasília)

Inaugurado no primeiro dia da nova capital, 30 de junho de 1958, por Juscelino Kubitschek, o Brasília Palace foi projetado por Oscar Niemeyer e inspirou-se na arquitetura modernista que definiu Brasília. O hotel foi planejado para abrigar dignitários, arquitetos, engenheiros e autoridades. Sua piscina ovalada, segundo a lenda idealizada por Niemeyer, permanece como um de seus principais destaques.

Mesmo após um incêndio em 1978, ficou fechado por quase vinte anos. Foi restaurado com supervisão do arquiteto e reaberto em 2006. Hoje abriga mais de 150 apartamentos, vários painéis majestosos de Athos Bulcão e obras de Darlan Rosa. Mantém-se ativo como primeiro hotel histórico de Brasília.

Brasília Palace Hotel | Foto: Divulgação
Brasília Palace Hotel | Foto: Divulgação
Brasília Palace Hotel | Foto: Divulgação
Brasília Palace Hotel | Foto: Divulgação
Grande Hotel e Termas de Araxá (Minas Gerais)

Inaugurado em 1944, este resort thermale foi célebre por seu cassino até 1946 e por sediar eventos memoráveis, incluindo estadias da Seleção Brasileira em 1950 e 1958. Localizado às margens do Lago do Barreiro, o complexo – construído dentro de uma área verde de 400.000 m² – combina banho romano nas termas (desde 1942) e arquitetura de Luiz Signorelli com paisagismo de Roberto Burle Marx.

Mesmo após o fechamento em 1994, foi reativado parcialmente entre 1997 e 2001 e assumido pelo Grupo Tauá em 2010. Hoje oferece centenas de acomodações, piscinas interna e externa, spa termal e uma estrutura completa para turismo de bem-estar, ainda ativamente operado. Foi também o primeiro cassino do Brasil, palco de carnavais e réveillons históricos.

Grande Hotel e Termas de Araxá | Foto: Divulgação
Grande Hotel e Termas de Araxá | Foto: Divulgação
Grande Hotel e Termas de Araxá | Foto: Divulgação
Grande Hotel e Termas de Araxá | Foto: Divulgação
Fera Palace Hotel (Salvador)

Inaugurado como Palace Hotel em 1934 (inspirado no Flatiron Building, de Nova York) tornou-se ícone da Rua Chile, principal via comercial da cidade na época. Recebeu celebridades como Carmen Miranda, Pablo Neruda e Orson Welles. Após décadas de declínio e fechamento no fim dos anos 1970, foi adquirido pela Fera Investimentos em 2012 e restaurado por Adam Kurdahl.

Reabriu em 2017 com 81 apartamentos e suíte, incluindo rooftop com vista para a Baía de Todos os Santos, salão Dona Flor (antigo cassino), restaurante Omí e decoração que mescla art déco à identidade baiana. Ativo desde então, é exemplo de revitalização do Centro Histórico de Salvador.

Fera Palace Hotel | Foto: Divulgação
Fera Palace Hotel | Foto: Divulgação
Fera Palace Hotel | Foto: Divulgação
Fera Palace Hotel | Foto: Divulgação
Hotel Nacional (Rio de Janeiro)

Um dos marcos da arquitetura hoteleira brasileira, o Hotel Nacional é mais do que uma hospedagem: é um ícone modernista de Oscar Niemeyer com jardins de Burle Marx, tombado como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO em 1998. Inaugurado em 1972 em São Conrado, no Rio de Janeiro, o edifício cilíndrico de vidro ficou conhecido por seus eventos grandiosos, sua programação cultural e por receber artistas como Stevie Wonder, Liza Minnelli e B.B. King. Fechado em 1995, o hotel ficou abandonado por duas décadas até ser restaurado e reaberto em 2016, mantendo sua proposta original de unir arte, arquitetura e sofisticação à beira-mar.

Hoje, com 34 andares, 413 quartos e um centro de convenções de 20 mil m², o Hotel Nacional preserva elementos originais como o vão livre do lobby, a piscina arredondada e a escultura Sereia de Alfredo Ceschiatti. O projeto de revitalização respeitou a proposta vanguardista do edifício, incorporando curvas, obras de arte e espaços amplos voltados para a paisagem carioca.

Hotel Nacional | Foto: Divulgação
Hotel Nacional | Foto: Divulgação
Hotel Nacional | Foto: Divulgação
Hotel Nacional | Foto: Divulgação
Hotel Ca’d’Oro (São Paulo)

Primeiro hotel cinco estrelas de São Paulo, o Ca’d’Oro surgiu como restaurante em 1953 e se transformou em hotel em 1956, consolidando-se em 1978 com a inauguração de sua unidade mais icônica na Rua Augusta. Frequentado por artistas, políticos e celebridades, como Pavarotti e o rei Juan Carlos, o hotel foi referência em hospitalidade de luxo por décadas. Encerrou as atividades em 2009, após 53 anos de funcionamento ininterrupto.

O Ca’d’Oro ressurgiu em 2016 com projeto da Brookfield e gestão da família Guzzoni, ocupando os andares superiores de um prédio comercial na mesma região. Mantém 147 apartamentos, restaurante, biblioteca e áreas de lazer, além de peças do acervo histórico do antigo hotel. A proposta atual une tradição e modernidade com um serviço acolhedor, resgatando o prestígio de um dos mais emblemáticos hotéis paulistanos.

Hotel Ca’d’Oro | Foto: Divulgação
Hotel Ca’d’Oro | Foto: Divulgação
Hotel Ca’d’Oro | Foto: Divulgação
Hotel Ca’d’Oro | Foto: Divulgação