Quem chega ao Pikes hoje encontra um hotel boutique charmoso, com 26 quartos escondidos no campo de Ibiza. Mas basta puxar qualquer fio da história para perceber que a arquitetura de pedra do século XV é apenas a moldura de algo bem mais intenso: o Pikes é o hotel onde Freddie Mercury comemorou 41 anos numa festa de três dias, onde Wham! gravou “Club Tropicana”, e por onde circulou praticamente toda a constelação pop dos anos 1980 e 1990. Um luxo!
De onde surgiu o Pikes Ibiza?
O lugar foi obra de um só homem: Tony Pike, aventureiro inglês que cruzou oceanos como marinheiro, sobreviveu a um naufrágio no Caribe, trabalhou como chapeleiro, viveu na Austrália e até tentou comprar uma mina na Papua-Nova Guiné. Em 1978, desembarcou em Ibiza ainda sem entender espanhol direito e se encantou por uma finca em ruínas… sem água, luz ou teto firme. Comprou o terreno usando as economias da esposa, Lynn, e começou a reconstrução com os filhos, martelando pedra por pedra.




Hotel abrigou diversas celebridades icônicas
O hotel abriu pequeno, improvisado. Tudo mudou em 1983, quando Bo Palk, executivo da MGM, hospedou-se ali e indicou o espaço ao produtor Simon Napier-Bell, que buscava locação para um videoclipe do Wham!. O resultado se tornou ícone: George Michael flutuando na piscina em seu Speedo, Andrew Ridgeley, Dee C. Lee e Shirlie Holliman espalhados pelo sol mediterrâneo – tudo dirigido por Duncan Gibbins. Tony aparece servindo drinques, bigode à la Burt Reynolds, inaugurando sua persona de anfitrião excêntrico. O clipe catapultou o Pikes e transformou a finca em passaporte para o circuito pop!
A partir daí, o fluxo de celebridades virou rotina. Pelos quartos temáticos do Pikes passaram Kate Moss, Naomi Campbell, Boy George, Robert Plant, Jean-Claude Van Damme, Kylie Minogue, Biffy Clyro, Spandau Ballet, Bon Jovi, Grace Jones, Tony Curtis, Julio Iglesias, Nigel Benn, Anthony Quinn, Five Star, Jade Jagger e Kurt Cobain. Era um desfile constante, às vezes glamouroso, às vezes caótico.


E então veio Freddie.
Freddie Mercury e Grace Jones fizeram história (e polêmica)
Em setembro de 1987, já sabendo do diagnóstico de HIV, Freddie Mercury pediu que Tony organizasse algo “memorável”. Tony levou a sério. Segundo os registros do “Independent”, “The People” e relatos do próprio Pike, foram três dias de excesso: 700 convidados, 350 garrafas de Moët & Chandon, milhares de balões dourados e negros, e um bolo monumental inspirado na Sagrada Família, que desabou antes da hora e precisou ser substituído por outro, decorado com as notas da música “Barcelona”. Os fogos teriam sido vistos até em Maiorca!


A lista de convidados parecia desfile de gala: Grace Jones, Tony Curtis, Bon Jovi, Naomi Campbell, Spandau Ballet, Julio Iglesias, Jean-Claude Van Damme, Nigel Benn, Anthony Quinn, Robert Plant, Five Star, Boy George – além de artistas, produtores, modelos e amigos que ocupavam cada canto da propriedade. O evento foi tão grande que, segundo Tony, Freddie brincou dizendo que poderiam “congelar a piscina e trazer elefantes patinando” se quisessem.
O clima exagerado do Pikes sustentava-se também nas histórias que Tony contava – algumas confirmadas, outras ajustadas ao longo dos anos. Em “Mr Pikes”, seu livro de memórias, ele afirmou ter se relacionado sexualmente com mais de 3 mil pessoas e descreveu um caso intenso com Grace Jones, iniciado em uma festa às escuras. Em entrevistas lembradas pelo “Daily Mirror”, Grace comentou no livro dela que Tony tinha “qualidades físicas” marcantes, para usar uma expressão elegante.

Os tabloides também popularizaram a ideia de que o hotel servia cocaína no café da manhã, algo que Tony, sempre teatral, respondeu com sarcasmo: “Por que alguém colocaria cocaína nos cornflakes? Seria um desperdício”. Ele insistia: a regra era BYOD – “bring your own dope”.
O hotel hoje
Nem tudo foi brilho. Em 1998, durante negociações de venda do hotel para o produtor italiano Enrico Forti, o filho de Tony, Anthony “Dale” Pike, foi assassinado em Miami. Forti foi condenado nos EUA, num caso ainda hoje contestado pela imprensa italiana. O episódio marcou Tony profundamente.
O Pikes entrou em declínio nos anos 1990, preso ao próprio passado. Em 2008, Tony vendeu o hotel ao grupo Ibiza Rocks, que restaurou a propriedade, manteve a estética rock’n’roll e realçou sua história. Tony ganhou residência permanente no quarto 25, onde viveu até 2019.
Hoje, o Pikes funciona como hotel boutique com restaurante premiado (Room 39), dois bares e noites temáticas que mantêm, de forma mais moderada, o espírito original. Mas é impossível caminhar pelo pátio sem sentir o eco das histórias..
