Nas viagens a Roma, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem trocado os lobbies de hotéis cinco estrelas pelos salões de um palácio barroco do século XVII. Localizado na Piazza Navona, um dos endereços mais emblemáticos da capital italiana, o Palazzo Pamphilj é ao mesmo tempo sede da Embaixada do Brasil na Itália e residência oficial do embaixador brasileiro em Roma. E, nas últimas passagens do presidente pela cidade, tem se transformado também em sua hospedagem particular!
A opção por ficar na embaixada foi confirmada ao Check Hotels pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), que informou que Lula e sua comitiva se instalaram no palácio durante a visita oficial à Itália neste mês. A viagem incluiu uma agenda na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e um encontro com o recém-eleito Papa Leão XIV, no Vaticano.
Essa não foi a primeira vez. O presidente já havia se hospedado no mesmo endereço em abril de 2025, durante o funeral do Papa Francisco, e também em junho de 2023, quando teve uma audiência com o pontífice, então ainda vivo.
História do Palazzo Pamphilj
Construído entre 1644 e 1650 para a influente família Pamphilj, da qual nasceu o Papa Inocêncio X, o palácio é uma das joias arquitetônicas do barroco romano. O edifício foi adquirido pelo governo brasileiro em 1960 e tornou-se propriedade da República Federativa do Brasil em 1964, após uma negociação conduzida pelo então embaixador Hugo Gouthier de Oliveira Gondim. Desde então, abriga os escritórios diplomáticos e a residência oficial do embaixador em Roma.
A construção impressiona pela monumentalidade. São salões ornamentados com afrescos de Pietro da Cortona, colunas em mármore e galerias que retratam cenas mitológicas inspiradas na Eneida. Durante séculos, o local recebeu cardeais, aristocratas e artista. Agora, hospeda missões oficiais brasileiras e, ocasionalmente, o próprio presidente da República.





Um endereço de luxo com problemas à vista
Mas o encanto do palácio esconde um cenário menos glamouroso. Em maio de 2024, a revista VEJA revelou que o edifício enfrenta sérios sinais de desgaste. Segundo funcionários ouvidos pela publicação, a última grande manutenção do Palazzo Pamphilj ocorreu ainda no governo Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990! A matéria citou inclusive relatos sobre riscos de incêndio e estrutura elétrica obsoleta…
O Itamaraty negou o estado de abandono, mas admitiu a necessidade de modernização e anunciou que pretende restaurar os afrescos e as fachadas originais, com financiamento de patrocinadores privados. A ideia é devolver ao prédio seu esplendor artístico, preservando a história e a função diplomática do espaço.
Enquanto isso, a hospedagem presidencial num edifício em processo de revitalização deixa a narrativa bem curiosa. Podemos dizer que, em meio ao luxo do patrimônio histórico e a precariedade de sua conservação, o palácio brasileiro em Roma vira um símbolo das contradições do próprio país que representa.
Lula no Palazzo Pamphilj
Durante o encontro deste mês, Lula se reuniu com o Papa Leão XIV no Vaticano, o primeiro entre ambos desde a eleição do novo pontífice em abril. Segundo a Agência Brasil, o presidente relatou ter discutido temas como fé, desigualdade e meio ambiente, além de convidar o papa para participar da COP30, em Belém, marcada para novembro de 2025. O pontífice, por causa do Jubileu, respondeu que enviará um representante do Vaticano.
De volta ao palácio, Lula dividiu os corredores revestidos de afrescos com ministros como Mauro Vieira (Relações Exteriores), Wellington Dias (Desenvolvimento e Assistência Social) e Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário).
Para um líder acostumado a circular entre cúpulas internacionais e cerimônias papais, hospedar-se em um palácio barroco no centro histórico de Roma pode soar como uma escolha natural, mas também política. Ao preferir o patrimônio diplomático brasileiro em vez de um hotel de luxo, Lula reforça a imagem de austeridade institucional, enquanto projeta o Brasil no cenário europeu por meio de um endereço de peso histórico e cultural.
